Hoje eu perdi um bebê

Hoje eu perdi um bebê

Por: Ilana Setton

Eu sei. São poucas, muito poucas as pessoas que falam sobre isso. É um desses assuntos que a gente nem sabe bem por que vira tabu. A imensa maioria das mulheres que eu conheço só conta que está grávida ao completar os 3 meses. Com medo justamente dele. Do aborto. Palavra feia essa.

E aqui estou eu, nesse espaço/tempo tão peculiar, que é a espera pelo segundo exame, aquele que vai dizer que sim, eu estava grávida. Mas não estou mais.

Estou triste. Muito triste. Uma tristeza que poucas vezes me lembro de ter sentido. Saí neste dia lindo de hoje, mas não pude ver beleza na limpidez do céu azul de primavera, nem nas árvores floridas, nem nas pessoas que passavam na rua, alheias ao que acontece dentro de mim.

A dor, pelo menos por enquanto, não é no corpo. É na alma.

Me sinto tão imensamente culpada… Por ter feito coisas que eu não teria feito, se soubesse que esperava um bebê. Por ter viajado de avião. Por ter ido à academia. Tomado litros de café. Bebido vinho, eu que nunca bebo. Por ter usado creme anti-celulite, nessa minha vaidade agora tão sem sentido. Por ter andando para cima e para baixo com meu filho de 12 quilos no colo. Por ter feito sexo.

Mas principalmente, me sinto culpada por não escutar meu corpo, que tentava me falar que alguma coisa não estava bem.

Eu sei que muito provavelmente não poderia ter feito nada para evitar isso. Foi natural. Acontece. Das pessoas próximas ouvi que Deus (ou a natureza) sabe o que faz. Que talvez tenha sido melhor assim. Que logo eu engravidarei de novo. Que essa é uma dor que passa.

Olho para meu filho lindo e saudável, para meu marido incrível, e penso que talvez eles – os outros que me falam – tenham razão. Mas ainda assim não consigo deixar de me sentir triste. De sentir essa perda. Mais do que isso, acho que tenho o direito de me sentir assim.

As palavras de consolo me incomodam. As racionalizações me incomodam. Tudo me incomoda. Vou me retraindo até ficar pequenininha.

Hoje eu só quero colo, carinho e silêncio.

 

***

 

Um adendo. Que beleza pode haver na vida, que consegue pegar um momento desses, de intensa tristeza, e decantar para o mais puro desejo transformador?

 

Ilana – Autora do blog: 1 + 1 são três – Mãe do Raphael. Mulher do André. Filha, irmã, amiga. Psicóloga e psicanalista. Dona de casa que trabalha. Dona do Chicão. Sou tantas coisas, e ao mesmo tempo nenhuma delas me define…