entre os mamaços e o seca leite

entre os mamaços e o seca leite

Por Fernanda

Na linha que liga, em uma ponta as mães leõas que amamentam suas crias até 1, 2, 3, 4 anos de idade, e, na outra ponta, as mães que tomam remedinho pra secar o leite na maternidade (existe!) não dando chance nem pra ela nem para o rebento de se deleitar de tal prazerosa (????) experiência, existem as mães que ficam meio na metade do caminho. Eu me considero essa mãe da “coluna do meio”.

Sou a mãe que faz questão absoluta de amamentar a cria, mas a amamentação tem prazo limitado – pra mim, 6 ou 7 meses tá ótimo. Respeito todos os outros formatos, mesmo discordando de alguns pontos.

O fato é que muitas coisas envolvem uma “boa amamentação” e uma delas, eu posso dizer,  é sorte. Ouço muitas histórias de mulheres que tiveram seus mamilos preservados, muito leite e nenhuma mazela. O resultado é um bebê saudável e cheio de dobrinhas e uma amamentação extensa que vai até o mini já ter seus dentinhos. Essas eu considero mulheres de sorte, de MUITA sorte. Ponto pra elas!

Porém, outras tantas que eu conheço, tiveram infinitos probleminhas com a amamentação. Alguns contornáveis e outros nem tanto. Por isso, como estou atualmente no maior momento “vaquinha leiteira” amamentando meu filhote de 2 meses e meio, ainda de 3 em 3 horas, entrei de novo no assunto e tive novas experiências, desta vez diferente da amamentação do meu primeiro filho, o David que hoje tem 3 anos e meio.

Na época do David, primeiro filho sabe como é: a gente fica aflita com tudo e todo mundo tem um zilhão de palpites pra você fazer:

-se esfregar os mamilos com uma bucha eles ficam mais resistentes;

-se  tomar sol diariamente nos mamilos eles ficam mais resistentes;

-se esticar e puxar várias vezes os mamilos no banho eles ficam mais pronunciados facilitando a pega do bebê;

-se passar limão no bico do seio ele vai ficar resistente (oi?)

E mais um monte de coisas que eu não me lembro agora. Mas o caso é que, estes “exercícios de resistência” para os seios, caíram por terra, e, na minha segunda gestação, eu só ouvi meu médico dizendo que nada disso adianta e que é na hora do “vamos ver”, é que você vai conhecer as suas dificuldades e lidar com elas.

Voltando para a amamentação do primeiro filho, o David nasceu, lindo, loiro e punk e pegou o peito direitinho desde a primeira vez. Eu tinha bastante colostro e meu peito já ficou em feridas na maternidade. Como que o peito que alimenta é o mesmo que sofre tanto pra alimentar? Castigo. Mas ao mesmo tempo era tudo tãoooooooooooooooo bom, quando ele vinha pra mamar eu esquecia de toda a dor, todas as fissuras, todas as mazelas e dava o leitinho dele, ou melhor, colostro dele. Quando cheguei em casa o leite desceu no dia seguinte. Muuuuuuuuuuuuuuuuuuuito leite. Parecia que meu peito ia explodir. Eu tinha leite pro David e para mais uns 5 bebês. Amamentava ele, e meu peito doía, sobrava muito leite no peito, foi então que meu obstetra me sugeriu a ordenha. Nesta época tive a sorte de conhecer a Érika, uma enfermeira/psicóloga que meu convênio médico enviava para a casa das novas mamães para dar uma força na “amamentação”, algo espetacular eu diria, todos os convênios deveriam ter este serviço. A Érika me mostrou como ordenhar “na mão” e me provou que eu tinha realmente leite para o David e para mais alguns bebês.

A amamentação foi de vento em popa e consegui amamentar ele até 6 meses. Eu voltei a trabalhar quando ele tinha 3 meses, e ordenhava manualmente no trabalho, congelava o leite em frascos de vidro e os leites congelados do dia eram as mamadas do dia seguinte do David. Porém ele foi se desinteressando pelo peito e se apegando a mamadeira. Nesta fase já tinham algumas mamadas com complemento (leite artificial) porque a rotina corrida nem sempre permitia a ordenha e por ai vai

Aí chegou a vez do Beny. Segundo filho, pensei, tiro de letra! Bastante leite eu já sei que tenho, amamentar eu já sei, conheço as mazelas do meu seio para amamentar, ou seja… easy!

Meu segundinho mamou logo que nasceu e foi lindo, pegou o peito direitinho também. Porém desta vez meu peito ficou em “carne viva” no primeiro dia da maternidade e meu leite desceu no segundo dia da materrnidade… Como? Simmmmmmmmmmm, o leite veio muito antes e o Beny é um bebê voraz que nasceu grande e sempre veio mamar com “ muita sede ao pote”. E muita ansiedade. Quando eu cheguei da maternidade com o peito explodindo e desta vez difíceis de encostar eu fiquei chocada como estava passando por isso com o segundo filho… “cadê sua esperteza Fernanda?” Não aprendeu nada com o David? Parece que aprendi, mas percebi que cada filho é único, cada gravidez e cada experiência idem.  Beny mama com mais força, com mais vontade, por mais tempo e mais vezes.

No oitavo dia de vida dele, fiquei muito doente. Febrão de 40º, muita dor no corpo, tremedeiras, calafrios, dor no peito mesmo sem ele mamar… Fui olhar no espelho e um vermelhão se apossava de uma parte do meu peito direito. Liguei pro Obstetra e batata: MASTITE. Já, mastite? Sim, mastite no 8º. dia de vida do pessoa. Antibiótico e continuei amamentando. Lágrimas de sangue a cada mamada. Meu mamilo ficou quase pendurado, achei que irira parar de amamentar. Colocava folhas de repolho gelado nos seios pra aliviar a sensação “quente e dolorida” do peito (e funciona!). Usei conchas de amamentação porque não conseguia enconstar NADA nos mamilos. O pediatra dele pedia para eu dar uma pausa, tirar o leite e dar na mamadeira, mas sou mais teimosa que uma mula e disse que iria tentar amamentar até quando não fosse mais possível.

Daí a mastite passou, e os mamilos foram cicatrizando (algo que eu achei que jamais iria acontecer), as mamadas ficaram mais espaçadas, a anarquia do primeiro mês com um rescém nascido em casa acabou e deu lugar para um novo momento: De calma e tranqüilidade com a amamentação do segundo filho. Eu poderia ter desistido quando o Beny regurgitava sangue e eu sentia que cada sugada dele era como se estivesse colocando um piercing no mamilo… seria mais fácil fisicamente mas não emocionalmente porque como eu disse eu faço questão de amamentar meu filhote.

Amamentar é persistir muito. E contornar os infinitos contratempos que aparecem no meio do caminho. É preciso muita paciência e muita tolerância e ainda assim nem sempre é possível continuar. No meu caso o fato de ter bastante leite ajuda. É meio caminho andado. O resto é comigo. Também tenho amigas que a noite não amamentam no peito para poderem estar descansadas no dia seguinte e agüentar o tranco ou trabalhar. São opções e formatos. Existem infinitos. Você só precisa encontrar o que se encaixa melhor na sua dinâmica. Se dedicar a amamentar com livre demanda ou de 3 em 3 horas é abrir mão de outras coisas. É estar disponível para o seu rebento. É se alimentar direito, evitar uma série de alimentos, álcool e afins. É estar bem para que o leite que seu bebê vá tomar seja o melhor possível. A amamentação é uma conexão profunda do bebê com a mãe. Poder amamentar meu filhote, depois de ter tido contratempos desagradáveis que eu jamais pensava em ter com o segundo filho, é um privilégio.

A mãe que busca a amamentação perfeita e fica com a imagem de um quadro do Renoir da mulher amamentando, ou está na turma daquelas sortudas que eu citei lá em cima, ou vai se decepcionar.

Porque amamentar está bem longe de ser algo perfeito.

Amamentar é algo a que você vai se adaptando, o bebê também, criando seu formato até ficar perfeito. É algo construído no dia-a-dia do recém nacido com a mãe. Mas se for possível, tente persistir. Caso você consiga superar os obstáculos será maravilhoso. Hoje eu já me deleito com um risadão banguela pós mamada que faz não só a amamentação ,mas a vida valer  à pena. E isso basta. Até a próxima mamada.

Fernanda é mãe do David e do Beny, estilista e autora do Mamma Mini.

 Imagem daqui. Renoir – Mother Nursing Her Child