Eles crescem, a gente tenta

Eles crescem, a gente tenta

Por Lana

Outubro aqui em casa é mês de neversário. O trio elétrico em peso assopra as velinhas em outubro – please, me poupe das piadinhas que aqui em casa só se “bimba” anualmente. Ha. Anfãn. Aniversários, réveillons, dias santos, datas comemorativas em geral… de repente me apeguei no calendário e achei que a mini reflexão podia valer um post. Veremos.

Quando a gente tem um (ou dois, ou três, ou mais) filho(s) pequeno(s) em casa, a gente fica muito pentelha. Não sei se é a falta de sono, o fato de ter um “ilustre desconhecido” na sua vida, os quilos a mais, a falta de “séquiso”, os hormônios ou tudo junto e misturado, mas – vamos combinar – mãe de recém-nascido, de filho pequeno é um póta pé no saco.

A gente fica monotemática e só fala de sono (ou da falta de), bico de peito, mamadeira, cocô, alergias, da primeira papinha. Afe! E a gente também fica seletiva com os amigos e os divide em dois grupos: os com filhos e os sem filhos. A gente descobre uma nova relação com os nossos pais, que agora não são mais só nossos, eles são avós. E a gente fica imaginando o que vai acontecer com a vida do casal depois de tanta intimidade, da barriga flácida, da carnificina do parto e tudo mais.

O marido, coitado, é um mero coadjuvante nessa novelinha clichê que é a maternidade de primeira viagem. Ainda vou fazer um post pra falar desse personagem deslocado que é o marido, que do jeito dele também teve a sua vida revirada, mas tem pouca (ou quase nenhuma) voz nesse momento. Me lembro das muitas vezes que eu chorava e ficava muito brava com ele de vê-lo sair para trabalhar com a sua rotina intocada, almoço com os “calégas” de trabalho, viagens internacionais e eu lá, trocando fraldas, levando na praça e surtando com três babies em casa.

É lógico, inegável, que é incrível acompanhar o crescimento dos filhos de perto, é priceless. A gente se deslumbra mesmo com as novidades e se apaixona mais ainda por eles a cada descoberta. Mas não era fácil administrar tanta coisa diferente e foram vários os dias em que eu quis ter nascido XY.

Neste mar de lugares comuns, tenho que concordar que eles crescem, e crescem rápido mesmo. E, thank God, a gente também cresce muito com eles, e dúvidas e questões tensas de um ou dois anos atrás dão espaço para outras, mais complexas e com prazos diferentes de validade.

O vínculo que a gente tem com eles nos primeiros dois anos continua simbiótico, mas ganha outro contorno e é difícil a gente se olhar no espelho e saber que ainda habita ali alguém com outros interesses além dos filhos. Pra mim ainda é difícil assumir pra mim mesma e pra eles, por exemplo, que eu adoro ficar sozinha e gostaria de fazer algumas coisas só pra mim, além do trabalho ou compromissos sociais, pra que eu me sinta bem. Difícil falar isso sem soar egoísta. Lembro-me de uma amiga querida comentar uma vez, que depois que os filhos nasceram ela tinha “perdido o direito de morrer”. Essa pequena frase resume muita coisa.

Na última sexta, fui almoçar com dois amigos de longa data, um do time “com filhos” e outro do time “sem filhos”. Adoro o fato de ter amigOS XY, eles têm uma visão diferente sobre as questões práticas do dia a dia e contribuem de uma maneira bastante positiva. E no meio do meu surto, intenso, cheio de dúvidas sobre decisões importantes a serem tomadas, a fala deles era bastante alinhada: “simplifique”, dizia um; “seus standards estão muito altos”, falava o outro.

Muitas pessoas conversam comigo e quando descobrem que eu tenho três filhos, trabalho fora e não tenho mais empregada todos os dias, sempre me perguntam “como eu consigo”. E, hoje, não mais entre fraldas e mamadeiras, mas entre lições, conflitos com amiguinhos e um ano cheio de viagens profissionais, eu respondo com outra pergunta: quem disse que eu consigo?

Eu tento. Conto com a ajuda inesgotável da família querida, lido com muitas frustrações diariamente e, no meio de tudo isso, me esforço pra tornar essa história toda mais divertida.

Lana é mãe de três e autora do blog Mãeshonista. Lá ela escreve sobre suas experiências como mãe (e conclui que ninguém, mas ninguém mesmo, te fala a verdade quando você está grávida).