Ei, deixe meu filho único em paz!

Ei, deixe meu filho único em paz!

Por: Fernanda Barbosa

Se você tem só um filho, logo vão lhe perguntar:

-E o próximo? Quando vem?

Se você, como eu, responder:

-Nunca.

… você está encrencada. Porque a sociedade não está preparada para filhos únicos, apesar das estatísticas oficiais dizerem que estamos, sim, preparados e engajados em 1,3 filhos ou 1,6… seja lá o que isso significa. Um filho e três carrinhos? Uma filha e seis bonequinhas Barbie? Enfim…

Diga que nunca vai querer o segundo filho e você logo terá uma resposta que duvida de sua convicção:

-Espere até ele ficar com uns 8 anos pra ver se não vai dar vontade de outro.

Estamos falando de filhos ou de drogas e abstinência?

Você também pode ter uma resposta provocativa, daquelas que duvidam de sua vocação de mãe:

-Dá trabalho, né?

Dá trabalho, sim, mas me daria trabalho ter 1,1 filho ou 1,3 ou 1,4, não importa. Não ter filhos também dá trabalho. Qualquer escolha de vida dá trabalho. Que observação esquisita!

-Mas não vai dar um irmãozinho pra brincar com ele?

Segundo filho é passatempo do primeiro? Não dá pra comprar meia dúzia de livros ou de quebra-cabeças para o primogênito?

O negócio é o seguinte: a sociedade diz que você pode tudo, mas se você tem alguma convicção que não está de acordo com as convicções que pairam no ar, ela lhe interroga, lhe cutuca, lhe testa a maldita paciência pra ver se você está mesmo certa da cabeça ou apenas amanheceu de bronca com o mundo, querendo contrariar.

Não, querida sociedade xereta, eu não quero ter o segundo filho. E eu convivia muito bem com isso, sem esbravejar minha posição por aí, até que ouvi essa pérola em reuniões de pais com a escola.

Mãe grávida pela quinta vez e doida para que nós também fizéssemos companhia a ela:

– Vocês não terão o segundo? (eu e mais outras três mães de filhos únicos)

-Eu penso em ter daqui a algum tempo – uma das mães respondeu.

-Penso muito nisso, mas não poderia dar todo o conforto que dou para a minha primeira – a outra mãe respondeu.

-Não – eu respondi.

Não gosto de intimidade com quem não conheço, aliás é uma de minhas birras com carioca (eu sou carioca, posso falar mal), então fui curta e grossa e, invariavelmente, isso me rende mais perguntas, apesar de minha intenção ser contrária a isso.

A mãe de quatro e meio:

– Mas eles fazem companhia uns aos outros e dá muito menos trabalho do que ter um só.

Eu, nas tamancas, mantendo a classe nas feições:

-A questão não é se um vai brincar com o outro ou não, a questão é de verdadeiramente estar preparada e querendo um segundo filho, não para que o segundo brinque com o primeiro, mas porque a família sente que falta alguém.

A outra mãe de filho único:

-E tem toda a questão da falta de tempo.

A mãe de 4,5:

-Mas filho único fica muito egoísta, não aprende a dividir, o mundo precisa de família grande.

E então eu me enchi:

-Primeiro, conheço muitos irmãos que se odeiam, que não se falam, então esse negócio de ter 2 ou 3 filhos para que tenham amigos é uma bobagem, pois nunca sabemos como serão. Segundo, isso que filho único é egoísta é outra besteira. A criação é o que conta, a educação é que vai fazer diferença. Conheço filhos únicos e filhos com muitos irmãos extremamente egoístas e egocêntricos.

A pobre mãe de 4,5 pareceu não resistir à minha fúria e completou:

-É… você tem razão, o que importa é a criação, é a família, é o que se aprende em casa. Mas ainda sou a favor de ter vários filhos.

Não foi naquele dia que me decidi por não ter mais filhos. Na verdade, quando disse “não” à pergunta dela, eu ainda tinha convicção de que “por enquanto, não”, mas com o passar do tempo, a ideia de ter um só filho foi se firmando em mim.

Quando meu pequeno nasceu, eu sentia a necessidade de ter dois filhos, meu marido também. Logo ele não quis mais ter outro e eu continuei querendo. Até que, por uma série de fatores, hoje posso dizer que minha família e eu nos sentimos completos sendo só três.

A decisão, obviamente, não é definitiva. A vida é longuíssima e sabe-se lá que necessidades de completude teremos daqui a alguns anos. No entanto, exijo que respeitem – verdadeiramente – a opção de minha família e respeitem meu filho único, porque eu respeito a opção de todos e não saio por aí questionando quantos filhos as pessoas têm e por que fizeram essa escolha.

Existem muitos problemas em ser filho único, assim como existe uma porção deles sendo você o primogênito de 3, 4 ou 5. Ou o do meio. Ou o caçula. Você nunca – nunca mesmo- estará livre das escolhas de seus pais quanto à procriação. Nem quanto à ordem de seu nascimento em sua família. Isso não implica que somos melhores ou piores, mais ou menos egoístas, assim ou assado.

O encarceramento social me incomoda. A sociedade, para compreender o caos, tende a colocar rótulos simplistas nas pessoas, nas coisas e nos momentos para sentir que tem algum poder sobre a realidade caótica que a cerca.

Desculpa, querida sociedade. Mas meu filho único não é o que você pensa que ele é e também é o que você pensa que ele é. Assim como todos nós, filhos únicos ou não, não correspondemos a rótulos estanques, tentar forçar para que alguém caiba na carapuça que você criou mostra, ao meu ver, uma leve tendência ao autoritarismo.

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Fernanda Barbosa é jornalista e mãe de um garotinho de 3 anos