Duas histórias sobre ser e ter criança

Duas histórias sobre ser e ter criança

Por: Isabella G

 

Primeira história

Eu me lembro da primeira mentira que um adulto me contou. Eu tinha 5 anos de idade, e um avô doente. O meu avô Otto era austríaco e o melhor vovô que uma garotinha daquela idade poderia querer: um sorriso doce, uma careca com cabelos brancos, um colo incondicional e uma voz meiga, apesar da estatura tipicamente germânica que ele tinha.

Um dia, ele adoeceu e ficou no hospital. Aí ele morreu. Minha mãe, que é advogada e por isso sempre me explicou os fatos da vida de maneira bem-articulada e lógica, me deu a notícia. “O Vovô Otto morreu”. “Como assim?”, perguntei, “mas ele vai ficar bom?”. Ela respondeu, “não, ele morreu. É como se você dormisse e não acordasse mais. O seu corpo pára de funcionar”. Obrigada pela explicação, mãe. Porque eu entendi. Fiquei triste mas logo fiquei boa – a incrível resiliência infantil.

Daí, certo fim-de-semana, fomos com meu pai, como de costume, visitar a Vovó Ruth no apartamento que já não tinha mais o Vovô Otto dentro.

Brincando no sofá onde sempre sentava-se meu avô, perguntei pro meu pai, “Mas cadê o Vovô Otto?”, no sentido de “onde colocaram” o corpo dele. A namorada do meu pai na época, uma criatura estilo jararaca aventureira de calça de couro com uma mania escrota de me dar beijo na boca, logo atravessou: “O vovô Otto foi para o céu, Bella”

Lembro-me exatamente da imensa confusão que aquilo causou na minha cabeça. “Ué?”, pensei, “achei que ele tinha morrido!”  Passei o resto do dia tentando descobrir como é que um cara alto e grande como o Vovô pudesse ter flutuado até o céu. Imaginei o vovô deitado, de olhos fechados, flutuando vagarosamente para fora da janela do apartamento, e suavemente subindo para as nuvens. Mas não podia ser, porque eu já sabia, com 5 anos, que gente não voava. Por quê ela falaria algo assim?

Porque adulto é pior que criança. Porque adulto é mentiroso, mitômano, inseguro e não entende que criança entende as coisas. Foi hoje que eu entendi.

 

História número dois

Semana passada, brincando de monstro como sempre faz, minha filha (que tem quatro anos) disse, com voz gutural, “O Godzilla vai comer você e você vai morrer, mamãe!!!”

Eu, que sou fã da Yoko Ono, disse delicadamente, “Ara, não é legal falar essas coisas”

Ela perguntou, “por quê?”

Eu disse, “Porque com certas coisas, a gente não brinca” – você há de entender que minha família tem sangue espanhol e que somos todas muito supersticiosas – “falar que eu vou morrer não é legal. Fale, ao invés, que eu serei ‘derrotada’. Que tal?”

Ara não entendeu. “Mas por quê??”

“Se eu morresse de verdade”, respondi, “eu não moraria mais aqui. Eu dormiria e não acordaria mais e você não me veria nunca mais”

“Mas para onde você iria?”, ela quis saber.

Pausa. “Droga”, pensei. Estive evitando, com sucesso, o momento de ter que explicar para onde é que se vai quando se morre, e eu mesma consegui enfiar-me na situação de ter que fazê-lo. Enfim, respondi que não sabia. Que a gente só descobre quando morre.

“E eu? Eu também vou morrer?”, ela perguntou. Com relutância, eu disse, “Vai. Todo mundo morre um dia”. Ela começou a chorar, e a chorar muito. Foi aí que eu notei que minha boca e minha honestidade brutal e desnecessária me enfiaram numa baita confusão.

“Mas eu vou sentir saudade de você!!! E do papai!!!”, ela gritava desesperada, o rosto encharcado de lágrimas. “Mas eu já vou ter morrido bem antes que você, Ara”, eu expliquei. Ela chorou ainda mais. Eu tentei consertar as coisas, e acabei dizendo “… mas a gente vai se encontrar depois de morrer!”

Silêncio. Ela se acalmou. Nós nos abraçamos, eu disse que a gente ainda tava viva, e que não falemos mais no assunto, e que tal sairmos para tomar sorvete? E o que você quer para o jantar?

Depois pensei que eu menti para ela, como mentiram para mim. E que talvez ela se lembre da história do “vamos nos encontrar”, fato que pode ou não ser verdade, mas que foi um floreio, um eufemismo, uma aspirina para a dor que é a verdade de que a morte vai nos separar.

E talvez então, já mãe, ela me perdoe.

 

(Post originalmente publicado em agosto/2009)

 

Isabella é uma das autoras do blog Manhê… abaixa o som!

Me acho a melhor mãe do mundo (ou seja, erro pra caralho mas de vez em quando acerto legal!), sou estudante de comunicação social, sou disciplinada, nerd, punk, vegetariana, palhaça, e, ainda por cima, sei cantar uma música em alemão