Do meu jeito

Do meu jeito

Por: Gisele Barcellos

 

Hoje vim defender o direito da criança de fazer as coisas do seu jeito.

Tenho visto cada vez mais blog, onde as mães, pais e professores, ao invés de deixarem as crianças fazerem seus próprios desenhos e brinquedos, fazem pela criança e ela brinca com mais um produto pronto (como os brinquedos comprados que também já chegam prontos). E fico bem triste, pela criança.

Óbvio que o resultado é esteticamente lindo e limpo. Mas o que a criança ganhou com isso?

Eu sou formada em Artes Plástica, com ênfase em Pintura. Pedi reingresso fiz quase todas as cadeiras para lecionar Educação Artística, só não me formei porque meu marido foi transferido de cidade e como estava grávida não podia viajar em função de muito enjôo.

Mas uma das coisas que mais frisam durante a faculdade é NUNCA SE FAZ OU DESENHA PELA CRIANÇA! Não importa se ela diz que não sabe. Toda criança sabe fazer do seu jeito. Não importa se ela tem 1, 2 ou 8 anos … toda criança sabe desenhar do seu jeito e é sempre lindo!

Lembro de ter visto uma entrevista com o inventor/desenhista do Papa Léguas, Chuck Jones, da Warner Bros., onde ele falava que devia o sucesso dos desenhos que fazia a mãe dele: além dela dar centenas de bloquinhos para ele desenhar, desde muito pequeno, ela jamais falou para ele que um desenho estava errado ou feio.  Isso me marcou profundamente.

Pense num gato.

Aposto que o gato que você pensou é muiiito diferente do gato que surgiu na minha mente. Mas não quer dizer que o seu gato é o certo e o meu está errado. É só diferente. No campo da arte também é assim. Não existe errado, nem certo, só diferentes jeitos de interpretar um mesmo objeto.

Quando meus alunos diziam que não sabiam fazer, um gato, por exemplo, eu começava a perguntar: – Como é um gato? Tem cabeça? Então faz uma cabeça. Tem orelhas, como são? E o que mais tem? E assim por diante, no final a criança me mostrava um gato lindo no papel.

E nunca se deve chegar para uma criança e dizer diretamente que está errado o desenho dela.

Tinha um aluno que sempre que desenhava pessoas, fazia uma das mãos sair do pescoço. E como fazer para corrigir? Ele precisa entender sozinho. Então eu ia para a frente da sala de aula e dizia para meus alunos congelarem, pararem com tudo que agora ia ter uma prova oral surpresa. E então perguntava: – O que é isso? (apontando para a minha cabeça) E todos respondiam CABEÇA. E eu continuava: – E isso? Que fica no meio disso?(apontando para o nariz e depois os olhos) Assim a turma começava arrumar os desenhos: os que tinham esquecido de colocar as sobrancelhas, colocavam; os que não tinham colocado orelhas, colocavam… E ia descendo até chegar no pescoço: – E isso aqui, que fica meio embaixo e do lado do pescoço? As crianças respondiam OMBROS, e eu daí perguntava, mas o que sai dos ombros? E assim todos começavam a pensar mais antes de desenhar.

Falar direto é agressivo, ela se sente burra e desmotivada… Mas quando ela se dá conta que fez um ‘errado’ e corrige-se, ela estará crescendo e percebendo o mundo de outra maneira.

Lá no meu blog, minhas crianças fazem quase (quase porque a parte da cola-quente e estilete eu que faço ainda) tudo sozinhas porque o mais importante é o processo, e tudo é bagunçado, manchado e imperfeito. É o quanto de criatividade, empenho, esforço que elas colocaram no que estão fazendo, não a parte estética e nem se está perfeito e limpinho que valorizo.

Se você faz tudo para o seu filho, ele vai aprender:

1.      Que ele não é capaz;

2.      Que ele não sabe fazer direito;

3.      Que ele deve esperar e receber as coisas prontas;

4.      Que os outros fazem melhor do que ele;

5.      Que só os adultos que sabem fazer e estão certos;

6.      É importante que tudo seja bonito, ou seja, que beleza é fundamental;

7.      Ele não terá o fascínio do descobrimento no manuseio dos materiais artísticos.

 

Se o seu filho faz sozinho, ele aprenderá que:

1.      O importante é fazer o melhor que você puder;

2.      Que é prazeroso investigar e descobrir novas maneiras de fazer coisas;

3.      Fazer e errar faz parte da vida;

4.      Que mancha não é sujeira, mancha é sinal de que houve ação artística;

5.      O processo de fazer é tão ou muito mais divertido que a coisa pronta;

6.      Que nem sempre as coisas saem do jeito que a gente planejou;

7.      Que a frustração faz parte do processo e é preciso recomeçar e superá-la;

8.      Prática faz a perfeição, mas que ninguém é perfeito;

9.      Ninguém sabe tudo, e o legal é tentar descobrir tudo;

10.   Que o seu jeito é lindo e único!

O processo de fazer uma pintura, uma escultura de sucata ou um desenho permite que a criança descubra um mundo infinito de possibilidades inesperadas e sensoriais.

 

 

Não tirem esse prazer delas! Deixem as crianças fazerem do seu jeito. Não importa se pintam o céu de vermelho ou azul, se a árvore tem copa rosa e troco amarelo, se o quadrado é meio redondo, se a letra está invertida, o mundo naquele instante de arte é mágico e infinito.

 

Ela vai ter o resto da vida adulta para fazer as coisas do jeito que os outros querem, deixem as crianças serem elas mesmas, pelo menos na infância!!!

 

Gisele Barcellos – mãe 24 hrs + ilustradora nas horas vagas, autora do blog Kids Indoor onde dá dicas de como entreter as crianças entre quatro paredes.



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