Direto da toca

Direto da toca

Por Ana Andrade

Ter filhos pra mim foi um túnel, a toca do coelho branco, uma passagem. Como também foi a morte do meu pai, a escolha da carreira e consequente saída de casa, o início e o término dos meus relacionamentos e as mudanças de cidades e ninhos.

Conceber, gerar e parir é um turning point. A vida não será mais a mesma – e eu nem queria mesmo.

Sempre sonhei em ser mãe, era um desejo, necessidade maior até que outros aspectos também importantes, pra mim é como se com filhos eu posso conquistar esses outros aspectos, e credito esse modo de encarar a vida ao fato de ao nascer meus pais já terem a idade mais avançada, serem aposentados. A vida era mansa. Em demasia.

Desejei do fundo do meu coração gerar, nutrir e cuidar. Desejo formar seres independentes e cientes de suas potencialidades e confortáveis com suas fraquezas.

Só que …

Tenho dias sim, em que sou naturalmente paciente, bem humorada, disposta e enxergo beleza para onde quer que olhe;

Tenho dias não, em que não quero sair da cama, não quero tomar café, não quero arrumar troço algum, não tenho paciência para ver dever de casa ou qualquer lhufas que se apresente e não quero dar colo.

Porém, como todas as mães sabem, os dias não viram sim, após um sorriso, um olhar, um pedido, uma necessidade. Oi metamorfose, prazer eu sou a Ana, vamos trabalhar juntas?

Nunca li tanto sobre bebês , crianças e adolescentes. Qualquer oportunidade de troca, dentro! Desejei até ter estudado pedagogia (algo que eu “desconhecia”).

Nunca mergulhei tanto em mim, me policiei, me eduquei, para depois relaxar e curtir o bom e o não tão bom;

Nunca questionei tanto a nossa sociedade e a forma que ela é desorganizada;

Nunca desejei tanto fechar a conta e passar a régua e ir morar numa ecovila, onde ninguém fala de enem, Nem, direitos trabalhistas, papai noel e coelhinho da páscoa.

Mas para equilibrar a equação …

Hoje gosto de sair mais cedo de casa para poder dar a vez no trânsito;

Hoje gosto de bater um papo cabeça com o filho;

Hoje gosto de ver a filha ficar horas enchendo e esvaziando o potinho d`água sem saber que existe tempo;

Hoje gosto de deitar, abraçada com meu amor, e embora o corpo esteja dolorido, sentir o coração agradecido pelo dia que vivi, com quem amo;

Hoje sei que quem amo, não é a projeção do que quero, e sim uma pessoa com características diferentes da minha e por isso eu amo mais ainda;

Hoje gosto de comemorar desaniversários, como o chapeleiro 😉  dar e receber flores, e afinal como diz um provérbio antigo:

Fica sempre um pouco de perfume na mão de quem oferece rosas.

Que meus filhos e todos os filhos do mundo também tenham um pouco de perfume nas mãos.

.:.

Ana -Um ser de sagitário, criatura nômade, arquiteta, mãe de duas figurinhas e casada com um personagem. Usando palavras do seu filho Gabriel  quando descobriu que pensava: Sabe, tenho muitas coisas aqui dentro da minha cabeça! Autora do blog Quase um moleskine.