Desejante (ou pré-tentante)

Desejante (ou pré-tentante)

Por: Nana (A louca do bebê)

O que é a loucura? Não existe uma resposta fácil (vide Foucault), mas uma das principais características é a imprevisibilidade. A nossa cultura valoriza o que é igual e que tem um padrão consistente, porque isso facilita a manutenção do funcionamento da sociedade. Quando existem comportamentos desviantes, eles são taxados de loucura e, de preferência, excluídos do meio, da convivência.

 

O meu blog é o meu sanatório, o meu asilo, o meu auto-exílio. Tomei a decisão de escrever aqui na blogosfera, porque já estava constrangida das pessoas me olharem estranho quando descobriam que eu sabia muito mais do que o esperado sobre fertilização, gravidez, parto, puerpério… “Mas ela nem sabe se o marido vai querer ter filhos…”. Digo mais do que esperado, porque o normal mesmo, o corriqueiro, é que se comece a saber desses assuntos só depois de já estar grávida. E olhe lá! Pra muita gente basta decidir que cor vai usar na decoração do quarto, porque do resto cuidam o obstetra e o pediatra.

 

Não estou dizendo que é imprescindível saber de tudo antes da gravidez. Claro que não! Sete, oito meses é tempo suficiente para obter as informações necessárias. Então não é necessário saber, mas se eu quero, me deixa! Deixa que eu me perca nas leituras, nos vídeos, nos fóruns, nos desejos, nos sonhos. Penso sobre isso, não porque sou obcecada, mas porque eu simplesmente gosto de pensar sobre isso. Ocupo o meu tempo com isso, porque eu quero, é um lazer, um prazer! E por que não seria normal? Não estou deixando de viver nada. Estou só substituindo um tempo que estaria ocioso, vagueando pela internet, para ler sobre um assunto que me interessa. Se a pessoa vai comprar um apartamento e passa muito e muito tempo pesquisando, isso é normal, afinal é um investimento para a vida toda. E um filho é o quê?

 

E sabe o que eu descobri? Tem muita “louca” como eu por aí. Nem falo somente pelas tentantes – que já fazem parte de uma categoria bem definida – mas por muitas outras que estão em outro nível, das pré-tentantes. Desejantes! São muitos os motivos que levam mulheres (homens, em menor quantidade, vá lá) a adentrar esse clube. Ou a idéia de ser mãe é muito recente, e falta-lhes coragem para começar as tentativas pra valer. Ou o marido ainda não se sente preparado (oi? Meu caso?). Ou estão num segundo casamento e o marido já tem outros filhos e não quer mais nenhum. Ou estão numa fila de adoção enfrentando a burocracia. Ou ainda não têm idade suficiente seja ela qual for. Ou ainda não têm um parceiro. Ou ainda não têm um emprego e uma vida estabilizada. Ou… Ou… Ou… São inúmeros os motivos que podem levar uma mulher a ter que um desejo louco, ensandecido, quase incontrolável de ser mãe, mas terem que esperar.

 

Não tenho fundamentação científica, não sei se existe um estudo antropológico sobre o assunto, nem tenho o objetivo de provar nada, mas tenho uma hipótese de que é muito é normal sentir essa vontade doida de ser mãe! Deve até ser uma coisa desenvolvida evolutivamente para a nossa espécie, regida mesmo pelos hormônios (a minha começou de verdade depois que parei de tomar pílulas por outros motivos). Afinal de contas, que mulher se jogaria às agruras de uma gravidez que até eu, que só sou uma desejante, sei que nem sempre é um mar de rosas, se não quisesse muito?

 

Então, meninas que se identificam com a categoria de desejantes, vamos sair do esconderijo! É normal que queiramos ter o nosso bebê. Querer muito não é loucura. Querer muito o nosso bebê significa que ficamos felizes com cada positivo das amigas (e não com inveja ou olho gordo). Querer muito o nosso bebê não significa que dará “zica”, e sim que estaremos cultivando o nosso amor para quando ele chegar. Todo o conhecimento e informações serão úteis em breve. Nunca iremos nos arrepender de não ter tido o parto ou a amamentação que queremos por falta de informação.

 

Nós temos sim o direito de falar, de desejar, de querer, de ler, de assistir, de pesquisar, de blogar, de pitacar, de comentar, de planejar, de conhecer, de amar. E como diria Lulu Santos, se isso é loucura, melhor não ter razão!

 

Nana, autora do blog: A louca do bebê, 31 anos, ama viajar, casada, psicóloga, funcionária pública e louca para conseguir uma terceira jornada de trabalho: ser mãe.