Das coisas sobre as quais não temos controle

Das coisas sobre as quais não temos controle

Por Roberta Ferec

Noite passada sonhei com a moça que fazia minha depilação em Londres.

Malu era mineira e, como milhares de outros brasileiros, se mandou pra Inglaterra em busca de uma vida melhor.

Foi todo um processo: primeiro ela cansou da pobreza, depois botou na cabeça que não queria mais ser pobre, elaborou um plano audacioso, e, com o dinheiro da venda da casa, comprou passagem pra ela e pro marido.

Chegando lá eles se juntaram a uma penca de primos e amigos que já estavam devidamente instalados e empregados na capital inglesa. Malu fazia parte de um tipo de imigrante que se vê muito por lá: o que saiu do Brasil, mas não saiu. Geralmente esse tipo de imigrante vai pro exterior pra mandar dinheiro pro Brasil – e quem há de condenar? Vivem anos fora do Brasil, mas só falam português, comem sonho de valsa e assistem Jornal Nacional vencido, gravado em fita VHS, pra modo de se sentir em casa.

Eita mundão diferente, pensava Malu. Ainda bem que ela tinha o marido e que, juntos, eles nunca se sentiam sozinhos. O que Malu não sabia era que os dois, de fato, não estavam sozinhos. Dentro dela, com alguns centímetros de vida, já estava Gabriel, que acabaria por nascer em terras estrangeiras.

“Roberta do céu, credita que eu pari sem entender uma palavra que o médico dizia??”

Quando comecei a frequentar o “salão” da Malu, Gabriel tinha uns 6 anos. Ele nasceu em meio a esse grupo de brasileiros, casa cheia, feijão na panela. Mas assim que começou a frequentar a escola ele, inevitavelmente, adquiriu a língua e os costumes locais:

“E fala inglês sem sotaque, viu? Quer ver? Gabriel, ô Gabriel, corre aqui conversar com a Roberta pra ela ver que lindo que você falando inglês! Pensa, Roberta. Quando que eu ia sonhar ter um filho assim inteligente, saído de pai e mãe burro que nem a gente!?”

Mas eu podia perceber que, apesar de todo orgulho de mãe, crescia um misto de pesar e saudosismo:

“Agora mesmo que eu não vou poder mais voltar pra Minas Gerais. Que eu ia ter que ser muito da analfabeta pra tirar ele dessa escola, concorda?”

Da última vez que vi a Malu, Gabriel já estava com seus 8 anos. A casa estava em festa: Gabriel havia ganhado um concurso na escola e sido presenteado com uma bolsa de estudos pra uma excelente universidade inglesa. Isso mesmo, Gabriel, filho da Malu e do Pedro, vindos lá do interior de Minas Gerais com 200 contos no bolso, ia crescer e se graduar em universidade internacionalmente reconhecida.

Malu era, naquele momento, a mãe mais orgulhosa do mundo.

Se aproximou de mim, e com aquele sotaque delicioso sussurrou:

“Eita que Minas agora ferrou mesmo, né, Roberta? Que eu ia ter que ser muito da analfabeta pra recusar uma bença dessa, concorda?”

***

Voltei pro Brasil e nunca mais ouvi da Malu.

Não sei como ela veio parar no meu sonho de ontem a noite, mas já que veio, acho que a mensagem é clara: você pode fazer tudo certo, fazer tudo errado, ser uma mãe rica, pobre, amamentar, não amamentar, ser presente, ausente, ser mãe orgânica ou fast food. Isso não importa: existe uma parte desse quebra cabeça todo que não é controlado por você, amiga mãe. Mas não é mesmo. Chame de destino, chame de Deus, chame do que quiser. Em algum momento alguém vai surrupiar o controle remoto da sua mão.

Vejam a Malu: ela não foi pra Inglaterra para que o filho ganhasse uma bolsa pra universidade. Ela foi pra fazer dinheiro e mandar pro Brasil. Missão cumprida, ela achou que retornaria a Minas Gerais.

Mas é aquilo, né? Nesse filme chamado vida, você pode até exercer o papel principal. Mas o controle remoto não é seu.

***

Se você conversar com sua mãe ou com sua avó, certamente vai ouvir muitas histórias assim. Experimenta: ouvir histórias é uma das coisas que mais me dão prazer na vida. Ouvir histórias faz com que você perceba que realmente existem coisas que os olhos não enxergam e que são inevitáveis. Você pode tentar evitar outras tantas, mas o que é pra ser, será. Com o perdão do clichê.

Eu mesma me considero pessoa que era pra ser.

Porque, acompanhem: a família do meu pai e da minha mãe já estava completa e acabada, antes de eu nascer. Completa porque eles já tinham três filhos, três meninos, um seguido do outro. E acabada porque eles já estavam separados. Isso mesmo – fui acidente de percurso. E, não, isso não me aborrece. Pelo contrário, me sinto uma uma pessoa de muita sorte.

Eu era pra ser e fiz questão de ser concebida, oito anos depois de meus pais terem fechado a fábrica procriativa – vamos chamá-la assim.

Daí no terceiro mês de gravidez minha mãe me pega rubéola. Rubéola, conhecem? Aquela que seu médico insiste que você não contraia durante a gravidez, de maneira nenhuma.

Veja, deve ter sido uma gravidez bastante desagradável: junta médica, melhor abortar, grande possibilidade de nascer com algum problema sério, melhor abortar, passou do tempo, não dá mais pra abortar.

Como na época não havia ultrasonografia, o negócio era esperar pelo melhor. E o melhor não tinha lá muitas chances.

Parto tenso, minha mãe muito nervosa.

Diz que a hora que o médico me viu ficou com os olhos cheios de lágrima (o que eu desconfio que seja folclore, só pra deixar minha história mais bonitinha.)

Ele virou pra minha mãe e disse :

– Você já tem três meninos, não é?

– Já.

– Bom, agora você também tem uma menininha.

Daí ele me examinou e completou:

– Uma menina linda e perfeita.

E foi assim que, contrariando as estatísticas, eu nasci já bem faceira e saudável. Nem resfriado pego e, tirando o pé bem feio e um ou outro parafuso faltante, nenhuma sequela foi constatada.

Porque nesse filme chamado vida, você pode até exercer o papel principal. Mas o controle remoto, amiga mãe, esse não é seu.

Ela não era pra ser mas foi. Aos 2 dias.

 

Post publicado originalmente aqui.

Roberta é uma das editoras aqui no MMqD, mãe de duas lindezas que eram pra ser de-qual-quer-ma-nei-ra, mora do outro lado do mundo e devaneia também no blog Piscar de Olhos.