Dá para ser mãe, profissional e feliz?

Dá para ser mãe, profissional e feliz?

Por: Patricia Lugokenski

Por gostar de cuidar de outra pessoa, pelo desejo de ser amada, porque tive coragem para administrar o desconhecido, porque aceito esquecer um pouco de mim e ficar acordada a noite, sou mãe.
Pelo amor à arte, porque gosto de me comunicar sem palavras, pela paixão pelas cores, por minha mente ser tão inquieta, porque desejo criar meu mundo, sou designer.
Porque tenho iniciativa, porque tive coragem para administrar o desconhecido, porque aceito esquecer um pouco de mim e ficar acordada a noite, porque desejo criar meu mundo, sou empreendedora.
A fonte é a mesma e as habilidades e desejos se fundem: sou uma só mulher: mãe, designer e empreendedora. Intrigante essa mania que temos de “setorizar”  e separar o que é profissional do pessoal, como se fossemos departamentados, como se nossos interesses e anseios fossem fatias de um mesmo queijo.
Onde termina a “pessoa” para começar o profissional?
Com a chegada dos filhos a equação ganha novos fatores e onde se separa a mãe da pessoa e a profissional da mãe e a pessoa da profissional?

Existe uma  possibilidade, vagarosamente ganhando notoriedade para as mulheres que se recusam a separar-se em fatias e a perder tempo precioso no trânsito sem fim, em reuniões sem sucesso, em happy hours de sorrisos plásticos. Mulheres que querem fazer o que gostam, sendo elas mesmas, administrando suas agendas como preferem  e estando perto da família. Essa possibilidade é o que vem se chamando “empreendedorismo materno.”
Para algumas pessoas tempo é dinheiro, para as mães empreendedoras tempo é a oportunidade de estar onde está a realização profissional e a alegria da maternidade, juntas onde acontecem os pequenos milagres da infância.
Não há clichê mais verdadeiro do que o velho: “como ele cresceu.. passa tão rápido..” Passa, passa rápido demais e não tem volta. Sempre é tempo de se aprender algo novo, desenvolver uma nova habilidade, arriscar uma nova carreira ou mesmo de voltar atrás e recuperar uma carreira abandonada. Mas a vida, essa não pára e não volta. Os primeiros passos só são dados uma vez, só se perde um dente de cada vez e não se tem uma segunda chance de começar a falar. A formação do ser humano só acontece uma vez.

Aqui estamos: querendo estar com nossos filhos mas querendo também ter carreira, ganhar dinheiro e prestígio. Queremos tudo e queremos agora.
Eu quero tudo! Quero que minhas “peças” juntadas façam sentido. Em nenhum lugar de mim há algo que justifique me separar de minhas filhas às 7h da manhã e só voltar a vê-las às 19h. Não encontro em mim razão para passar horas no trânsito ou permanecer no escritório se o trabalho já foi finalizado enquanto lá fora as vidas que gerei desabrocham longe dos meus olhos e dos meus cuidados. Também não quero abandonar a satisfação de executar o trabalho que me satisfaz e me possibilita independência financeira.
Achei a resposta para esses anseios gerando minha renda fazendo o que nasci para fazer, despendendo a isso o tempo que desejo, no momento que desejo. Adoro o que faço e encontrei o balanço entre minhas “partes” . O retorno é proporcional aos meus esforços e abdiquei de muitas coisas, é claro.  O caminho foi longo e foi preciso muito apoio da família, muita paciência e muito peito.

A humildade foi minha companheira pra aceitar no começo trabalhos mais simples e menos remunerados e junto com a curiosidade me permitiram aprender. Há muito o que aprender! Gerir o próprio negócio, seja como prestadora de serviço ou produzindo algum produto exige que você saia do seu quadrado e absorva um pouco de várias áreas como finanças, vendas e comunicação.  Seu negócio será, como seus filhos, feito para o mundo, é preciso prepará-lo pra isso.
Mas o conhecimento está acessível pra quem quiser. Há um grupo grande de mães colaborativas na rede e ainda mais empreendedores e órgãos voltados para o empreendedorismo mostrando o caminho das pedras e estendendo a mão a quem procura.

Hoje preparo o café da manhã das minhas filhas e as levo onde forem. Não perco uma reunião na escola nem preciso explicar pra ninguém se saio do trabalho para levá-las ao médico ou mesmo ao cinema. Posso anotar nos seu livro do bebê cada nova descoberta que eu mesma testemunho. Não tenho a segurança do contracheque nem da licença maternidade remunerada. Nem sempre descanso nos finais de semana e ninguém pode resolver meus “pepinos” por mim. Às vezes a queda, ainda que sazonal do faturamento, assusta. Às vezes sinto saudades até mesmo de poder me desconectar de uma peça e ser uma fatiazinha apenas. Já finalizei jobs com meus bebê no sling e já abdiquei de clientes porque não respeitavam meus limites.

Não é perfeito, como nada nessa vida. Mas como disse Santo Agostinho, “a felicidade consiste em continuar desejando o que se possui”.
Acredito, então, que seja essa a minha fórmula da felicidade. E a sua?

 

Patricia Lugokenski, mãe da Maria e da Helena e designer no estúdio adoro design e comunicação. Autora do Projeto Leoa, que presta serviços em design gráfico e divulga conhecimentos na área para mães empreendedoras ( www.projetoleoa.com.br e www.facebook.com/projetoleoa ).