Culpa zero, menos mãe e outras asneiras

Culpa zero, menos mãe e outras asneiras

Por: Lia Miranda

O debate é velho. Nunca quis me envolver porque se posicionar sobre as campanhas contra a culpa materna ou as auto-defesas sobre não ser “menos mãe” implica uma série de conflitos interpessoais, sentimentos feridos, mágoas e, sempre, a trollagem. Mas de admiradora passiva das mães blogueiras que têm sido enfáticas em suas posições em defesada infância e da maternidade ativa e consciente, volto a levantar a voz, calada desde o nascimento da Margarida.

A primeira vez que ouvi os conceitos de “mais mãe” e “menos mãe”, achei-os tão sem importância que preferi jamais mencioná-los em meu blog. Quem sabe os ignorando eles desapareceriam. Mas eles estão cada vez mais presentes. Li algumas excelentes reflexões desconstruindo esses conceitos, e realmente achava que eles eram apenas rótulos vazios de sentido. Até que meus estudos sobre a linguagem me levaram a pensar que nenhuma palavra é vazia. Se a linguagem surge da realidade ou a realidade da linguagem, se os significantes são arbitrários ou não, não importa: importa que, se uma comunidade verbaliza algo, é porque algo existe ligado à palavra. Se no príncipio era o verbo e depois houve, não importa. Importa é que houve. E há. E foi quando cheguei à conclusão de que, sim, existem mais mães e menos mães.

“Mais” e “menos” são advérbios, palavras que modificam um verbo, um adjetivo ou outro advérbio. Não deveriam, portanto, ser usadas junto a substantivos (“mãe”, no caso). Diríamos uma mãe melhor ou pior – mas aí ficaria politicamente incorrento demais. Mas como a língua é viva, e as classificações não são estanques, no caso das expressões “mais” e “menos mãe”, a palavra “mãe” se comporta como um adjetivo. A qualidade de quem exerce a maternidade. Se uma pessoa é mais bonita, ela tem uma maior quantidade de beleza, ou uma beleza mais refinada. Uma “mais mãe”, então, seria uma pessoa que exerce a maternidade em maior quantidade (de tempo, por exemplo), ou uma maternidade de melhor qualidade. E isso não é totalmente sem sentido.

As teorias sobre o que quer que seja – arte, literatura, comunicação – se sucedem em ondas, uma se contrapondo à anterior, buscando resgatar o que aquela ignorou ou desconstruir o que havia estabelecido como absoluto. Se numa cultura pré-feminismo havia papéis bem definidos para a mulher, nem sempre tão agradáveis, o feminismo problematizou as diferenças sexuais, buscou a emancipação da mulher e gerou uma nova crise que agora somos chamados a resolver. Poderíamos falar em um pós-feminismo, onde a mulher reivindica o direito de ocupar papéis que passaram a ser desprezados como menores – de dona de casa, mãe, parideira, lactante – com o mesmo valor que têm os papéis de cientista, profissional, executiva, enfim, papeis remunerados.

E, atualmente, existem várias teorias maternas em coexistência. Citaria três que considero mais significativas:

1. A teoria da maternidade ativa e consciente: vê mãe e pai como responsáveis pelos filhos que colocaram no mundo. Esses pais devem buscar as melhores escolhas para seus filhos, mesmo que isso implique sacrifícios pessoais. Estão dispostos a mudar suas rotinas, suas jornadas de trabalho, suas prioridades em nome do respeito à infância.

2. A teoria de que cada um faz o que acha melhor para o próprio filho: essa teoria prefere isentar-se de juízos de valor, mesmo que as mães e os pais que a adotem tenham suas próprias convicções sobre como cuidar de seus filhos. Eles mantêm o discurso ingênuo de que não podemos julgar os outros, e que qualquer maneira de maternar é válida. O problema dessa teoria é que essa isenção não existe. Ainda que, no discurso público, uma mãe sorria para cada atitude das outras mães, por mais bárbaras que elas possam parecer, no fundo não existe ser humano que não reprove internamente atitudes incoerentes com seus próprios valores. Essa teoria rejeita todas as outras teorias, como se teoria não houvesse. Mas a objetividade é um mito, e defender que cada um faz o que acha melhor é puxar o tapete sob os próprios pés.

3. A teoria da culpa zero: essa teoria é a preferida das grandes mídias e agências de publicidade. Ela coloca o adulto em primeiro lugar e, ainda que nem sempre o faça descaradamente, pinta a maternidade como uma tarefa de mártir e a criança como um estorvo. Cozinhar para o filho não pode ser um prazer. Diminuir as saídas à noite para acordar às 6h com as crianças e passar uma manhã aproveitando o sol no parquinho significa abrir mão da própria vida. Recusar uma promoção porque o excesso de trabalho prejudicará o tempo com as crianças é perder a própria identidade. Não me restringirei a este parágrafo porque é sobre esta teoria que quero falar.

A teoria da maternidade sem culpa parte do pressuposto de que temos uma identidade própria, autônoma, que nada tem a ver com o mundo externo. Ora, um náufrago numa ilha deserta não tem absolutamente nenhuma identidade, pois nossa identidade só se encontra no outro. A identidade é um pressuposto relacional. Não consigo, portanto, entender onde é que a simbiose com nossos filhos elimina nossa identidade – quando é exatamente aí que podemos a encontrar.

O princípio demoníaco da identidade própria, auto-suficiente, nada mais é que um engodo para nos desumanizar e nos tornar vítimas perfeitas do consumismo e do capitalismo industrial. Segundo a grande mídia e a indústria publicitária, ser você mesmo não é ficar meditando, tentando se comunicar com seu eu interior. Ser você mesmo é ter um bom carro, ter roupas de marca, fazer sempre as unhas, tem um emprego de sucesso. Ser você mesmo, portanto, é ser exatamente igual a um padrão de sucesso e beleza estabelecido por outras pessoas. Ser você mesmo é ser uma marionete.

E falando em marionete.

A teoria da culpa zero se traveste de um herói que vem nos resgatar de um sentimento negativo e opressor. Mas não é a culpa que essa teoria tenta aniquilar: é a nossa consciência.

Quem leu a história do Pinóquio ou assistiu ao filme compreenderá a diferença. O Grilo Falante é um amigo querido do boneco de madeira, que diz a ele as coisas que são certas e boas para ele. Quem quer se livrar do grilo são os comparsas de Stromboli, que nada mais quer que capturar a marionete para usá-la como seu escravo e ganhar dinheiro com isso. O que a teoria da culpa zero quer não é nos libertar: é justamente o contrário.

As consequências dessa teoria são desastrosas. Pais e mães relegando seus filhos a um abandono emocional em nome das suas próprias rotinas. Crianças perdidas, sem educação, sem carinho, sem disciplina, jogadas na frente de uma televisão enquanto a babá fala ao celular.

Demorei a ter coragem de falar isso, mas preciso. Agradeço imensamente ao Dr. José Martins Filho, que teve a ousadia de públicar vários livros defendendo o envolvimento dos pais com seus filhos, condenando a terceirização da infância e chamando os adultos à responsabilidade e a assumirem seus papéis. O Dr. José Martins, em A Criança Tercerizada, teve a coragem de dizer que quem não está disposto a mudar suas rotinas para cuidar de seus filhos não os deveria ter.

E a teoria da culpa zero está aí para dizer que ninguém é menos mãe porque – complete com qualquer coisa: não pariu, não amamentou, deu papinha industrializada, não passou tempo suficiente com a criança. Minha amiga Cíntia não é “menos mãe” – sejamos francos: mãe pior – porque não amamentou. Mas a Galisteu, que desmamou o filho porque precisava viajar com o marido pra Ibiza quando o bebê tinha dois meses, talvez seja. É verdade que não se pode jugar a qualidade da prática de uma mãe por um aspecto isolado, especialmente se desconsiderarmos todo o contexto cultural e social no qual ela está inserida – se tem ou não apoio, como foi sua própria formação, que experiências pessoais afetam suas escolhas etc. Mas está na hora de quebrarmos a corrente da reprodução cega de tudo que sempre foi feito de uma certa forma, e refletirmos sobre nosso papel na sociedade.

O que eu tenho a ver com o que fazem os outros pais e mães? Muito. Porque essas crianças com as quais minhas filhas estão convivendo na escola, na igreja e no parquinho serão seus futuros amigos, namorados, colegas de trabalho, vizinhos, patrões, governantes. Desculpem-me o clichê, mas é o mundo de amanhã que estamos construindo. Portanto, rejeito a teoria de que cada um faz o que acha melhor, primeiro porque quem defende essa teoria, embora não o admita, tem suas próprias convicções do que acha melhor e, mesmo que internamente, condena quem faz diferente. Segundo, porque essa teoria não traz nenhum benefício para as nossas crianças e abre espaço para que os meios de comunicação de massa (que não são entidades abstratas, mas pessoas querendo lucrar) entupam a cabeça das mães mais “abertas” com teorias maliciosas como a da culpa zero.

Sejamos honestos, não relativizemos: existem, sim, mães e pais melhores e piores. Mais e menos pais e mães. Seja porque têm menos disponibilidade para exercerem esses papéis, seja porque os exercem com total irresponsabilidade. Pais e mães piores são aqueles que se colocam como prioridade diante de seus filhos, são os que querem a todo custo desvencilhar-se deles com medo se se encontrarem consigo mesmos e preferem viver anestesiados pelo consumo, pelo lazer, pelo ócio.

Filhos são uma dádiva. Não caiamos na armadilha de achar que qualquer coisa vale mais do que eles. O conflito entre nós e eles é um mito criado para vender brinquedos eletrônicos, papinhas industrializadas, DVDs, roupinhas caras e artigos de decoração. Nossos filhos são nossos parceiros, e jogar na lixeira essa oportunidade única de nos redescobrirmos é um enorme desperdício.

* Este post foi inspirado pela campanha do coletivo Infância Livre de Consumismo contra uma matéria publicada na Revista Pais & Filhos sob o selo “Culpa, não”.

Lia, 30, casada, cearense, ex-jornalista e futura tradutora, autora do blog Um, dois, três, cado de farinha!. Mãe das pequenas Emília e Margarida. E que venham mais!