Crianças esquecidas no carro – Precisamos falar sobre isso

Crianças esquecidas no carro – Precisamos falar sobre isso

Por Ju Buzzinaro

Aqui em casa essa conversa aconteceu ainda durante a gravidez. Ao escutar mais uma notícia sobre criança que morreu sozinha no carro, meu marido afirmou sem nenhuma cerimônia (e nenhum senso de delicadeza, já que eu estava grávida!!) que é tão fixado em rotinas que se achava capaz de esquecer um filho no carro. Confesso que na hora pensei logo em me separar de alguém tão auto crítico da própria loucura. Mas ele é engenheiro e eles são assim: não tem noção alguma de que às vezes as pessoas não estão prontas para tanta verdade.

O fato é que, mal da vida moderna (e da falta de confiança em babás), os casos de crianças que são esquecidas em carros estão se tornando assustadoramente mais frequentes. Isso sem imaginar quantos são os casos em que os pais esquecem mas se lembram a tempo de salvar seus filhos, pois esses não aparecem nos jornais…

Fácil julgar, acusar o povo de descuido e negligência… Mas não venham me dizer que todas essas pessoas não amavam seus bebês tanto quanto a gente, não sofreram ou não vão sofrer para o resto da vida as consequências de sua distração. Irmãos ficam traumatizados. Casamentos com certeza acabam. Como perdoar alguém que esqueceu e por isso matou o maior bem da sua vida?

É sofrido, eu sei, assumir que uma coisa dessas pode acontecer na nossa casa. Mas é necessário conversar sobre isso.

Como sempre, no Brasil não há estatística oficial sobre o número dessas ocorrências. Mas elas parecem estar aumentando, ao menos nas aparições na imprensa.

Já os americanos há alguns anos contam essas vítimas: de janeiro a setembro de 2012 os EUA já haviam registrado 29 casos. Em 2010 foram 49 crianças as vítimas do chamado “Heat Stroke”. Contabilizaram 550 casos desde 1998. Os dados são da ONG Kids and Cars, que trata de todos os tipos de acidentes envolvendo crianças e automóveis.

No Japão, dizem, os supermercados e outros lugares públicos de grande circulação trazem placas em que está escrito algo como: “Por acaso vc não está esquecendo seu filho?”

Algumas matérias falam em morte por asfixia. Mas o fato é que, com as altas temperaturas, essas crianças morrem é de desidratação e distúrbio hidroeletrolítico. A morte costuma ser precedida de convulsões.

Selecionei algumas dicas recolhidas em diversas fontes sobre como evitar esse tipo de acidente. Ah… Claro que você nuuuunca vai esquecer o amor da sua vida no carro… mas não custa criar alguns hábitos de prevenção:

 Cuidado com alterações de rotina. Muitas dessas mortes ocorrem quando a rotina mudou. Exemplo: sempre quem leva a criança no berçário é a mãe, e de repente um dia essa atribuição ficou com o pai que costuma fazer outro itinerário.

Coloque alguns objetos pessoais no banco de trás. Bolsa para as mulheres, carteira e/ou celular para os homens. Material de trabalho. Qualquer coisa que você sentiria falta em pouco tempo.

Coloque a mochila ou bolsa da creche, ou objetos da criança, no banco da frente.

Evite o uso de filme nas janelas. Isso facilita que passantes localizem uma criança esquecida. Muitas delas acabam sendo salvas por gente que está passando ao lado do veículo.

Deixe o som desligado (ou tocando músicas infantis) quando a criança estiver no carro. O som desligado evita a distração e as músicas infantis lembram da presença da criança.

Crie o hábito de confirmar que deixou a criança no berçário. Fazemos isso aqui em casa, um SMS ou ligação todo dia. Se eu atraso, o Buga logo escreve perguntando.

O berçário pode ligar perguntando sobre a ausência da criança. O meu não faz isso, e o dessas crianças que morreram pelo jeito também não. A maioria das vezes ouvirão respostas tipo “está com febre”, mas se um dia salvarem a vida de um bebê que estiver trancado num carro terão uma recompensa incalculável. #ficaAdica

NÃO IGNORE A POSSIBILIDADE DE ISSO ACONTECER COM VOCÊ. Esse é o maior erro por trás da maioria dos acidentes.

Juliana é mãe, pediatra e autora do blog Cartas Brasilienses.