Consumismos

Consumismos

Por: Ártemis

Eu ando com dois buracos por aí: um no peito e outro no bolso. Passar horas longe do meu pequeno realmente me abalou de maneira profunda, e tenho ocupado muito do meu tempo livre (e, às vezes, até do comprometido) em consumismos loucos.

Tirando a parte engraçada do causo do sapato, pisca dentro de mim o sinal vermelho da infelicidade, da insatisfação e da ansiedade. Todos os dias quero comprar brinquedos lindos e educativos, pensando em quanto será divertido empilhar, fazer rolar, balançar e emitir sons diversos com meu filho. Diariamente penso nas roupinhas que quero lhe comprar, para tirar fotos lindas, que ficarão para a posteridade e registrarão o crescimento do meu filho. Não se passa um dia em que eu não pense no que possa estar faltando em casa, para comer, trocar fralda, beber, enfim, viver. Tão vendo o tamanho do buraco, da solidão, da tristeza em não estar em tempo integral com meu filho? Brinquedos para tornar divertidas as ridículas (em termos de duração) horas que passo com Arthur. Roupas que não vejo ou verei ele usar, porque estou enfurnada num escritório, e que marido fotografa para que saiba como ficaram. Itens de higiene, hortifrutigranjeros, bebidas de todas as naturezas, tudo que não pode faltar, tudo o que nutre e traz bem-estar.

Veem como é triste isso?

Veem como parece desesperador?

E é. Triste e desesperador, porque quando me vê, ao chegar da creche, Arthur não quer brinquedo e nem me importo com o que ele veste: só queremos nos abraçar, nos amar, nos aconchegar. Claro que brincamos, claro que fico toda prosa quando vejo meu filhote lindo dentro de uma roupinha fofa ou gaiata que escolhi para ele. Mas se ele estivesse pelado e tudo o que me restasse fosse minha voz, nós estaríamos lindos e entretidos.

E aí, além disso, penso em como é triste também constatar que, de repente, eu entendo muito aquelas mães (e aí a minha se inclui) que querem fazer todas as vontades materiais dos filhos, eu entendo a importância equivocada que “ter” tem na nossa sociedade. E deprimo um pouquinho, sabem? Porque eu trabalho feito uma mula manca para ter dinheiro para pagar a creche que acolhe meu filho enquanto eu ganho dinheiro para preencher na nossa relação um buraco imensurável, que é do tamanho de 10 horas diárias de separação, do tamanho de mamadas fora do peito, de choros sem o meu colinho, de dormidas sem o meu calor. É um buraco tão grande, mas tão grande, que muitas vezes faz de buraco negro, e suga todas as luzes ao redor. Menos, é claro, o sorriso do Arthur. E minha preocupação é justo com isto: o sorriso do Arthur. Mantê-lo, cativá-lo, prendê-lo no rostinho do meu filho. E sinto que falho.

Querem saber? Para mim, o ideal seria largar emprego, carreira, dinheiro e canudo, porque Arthur é muito maior, muito melhor que tudo isso junto. Detesto ir trabalhar e saber do dia do meu filho por uma tabela pré-impressa, com categorias planas e tão vazias de sentido: alimentação, evacuação, sono, observações. Meu filho é mais, muito mais, infinitamente mais complexo que categorias estanques numa página de agenda. Mas, por enquanto, ele é isso também, porque não posso tirá-lo da creche, porque não posso largar o emprego.

Daí, hoje, exatamente hoje, vem aquele bafafá todo sobre infância, consumismo, reality show de bebês e mães. Fiquei mal, pensando em como as coisas às vezes saem da proporção e entram numa perspectiva doida e enganosa.

Enganosa? Não me iludo, apenas me engano, me distraio, porque preciso aprender a processar emoções e experiências que não estavam aqui até bem pouco tempo atrás. Então, quero crer, numa distorção que hão de me perdoar, que meu consumismo equivale ao processo catártico aristotélico, e que na falta de tempo para ler, assistir a peças, filmes ou espetáculos artísticos, me fio no espetáculo do consumo para tentar experimentar novas formas de lidar com todo esse espaço que sobra (e que paradoxalmente comprime, aperta, estrangula). Um espaço de 64cm e 7,5kg. Dimensões objetivas bem definidas, dimensões subjetivas impossíveis e inomináveis.

Sigo então consumindo produtos, me consumindo em dores e angústias, sendo consumida pelos dias.

Espero que meu consumismo não saia do controle (e controle aqui é me reconhecer consumista e ligar o sinal de alerta) e que eu consiga não perder a perspectiva de que o importante aqui não se compra, não se vende, não se empresta: damos.

 

Post originalmente publicado em dezembro/2012

 

Ártemis é mãe do Arthur e corajosa desbravadora do mundo selvagem da intimidade feminina. Boa viagem!