Como a chuva molha o que se escondeu

Como a chuva molha o que se escondeu

Por:  Peripécias de Cecília e Fofices de Clarice*

 

*Esse blog faz parte do Especial Top 20 do MMqD, uma seleção dos blogues mais votados pelos nossos leitores, através do formulário VIP na pracinha.

A maior mudança se deu na gravidez.

Se na primeira gravidez e pós-parto imediato (que depois eu vim saber chamar-se de puerpério, e ele dura bem mais que o pós-parto imediato) eu era um poço de insegurança – com poucas e nada definitivas certezas, mais preocupada em sobreviver àquilo tudo do que em nadar contra a corrente ou mudar radicalmente meu estilo de vida -, com você já começou diferente.

Na sua gravidez, subitamente eu mudei. Mesmo sendo jornalista e, acima de tudo, uma pessoa curiosa sobre as coisas do mundo e da vida lá fora, parei de ler jornal, de acompanhar o noticiário, de me interessar por tudo isso. Era ano de Copa do Mundo, de eleições presidenciais no Brasil, mas eu não estava interessada. Eu estava envolta em uma miopia gravídica – que de fato aconteceu, minha visão ficou turva por vários meses, este é um dos sintomas pouco usuais da gravidez – que só me fazia enxergar o que era importante para mim, para nós.

Tentei focar no parto e, principalmente, na amamentação. O fato de não ter amamentado a sua irmã como eu gostaria me abalou tão profundamente que até hoje sinto esta lacuna em nossas vidas. Eu havia prometido a mim mesma que, se tivesse mais um filho, este seria amamentado. Para isso, fui atrás de mais informação. Ou melhor, de informação qualificada.

Se na primeira vez eu achava que ia ser natural, não sabia dos possíveis problemas nem muito menos de como superá-los, na segunda me cerquei de toda a informação possível e, o mais importante, trabalhei esta questão na minha cabeça. Descobri que a minha cesárea quase eletiva, sem trabalho de parto, tinha tido um papel importante no insucesso da amamentação. Mas não só: a falta de apoio e de confiança contribuíram bastante. Amamentar era, desde sempre, o meu foco com você.

Daí que você nasceu de uma forma que não foi a que eu esperava, mas me fez vivenciar um trabalho de parto que foi libertador para mim, em todos os sentidos. Você, que havia passado a gravidez quase toda sentada na barriga e que, depois de muita acupuntura, moxabustão e afins, havia ficado na posição mais correta para nascer, resolveu dar mais umas piruetas justamente no meio do trabalho de parto. Só que o líquido estava acabando e, talvez por isso, você tenha ficado no meio do caminho, deitadinha na barriga.

Fiz de tudo para que você nascesse por um parto normal, mas como bebê deitado não nasce naturalmente, foi feita uma cesárea e você veio ao mundo. O foco na amamentação continuava e eu já comecei burlando as normas do hospital pedindo que você mamasse ainda sujinha do vérnix. Você mamou e aquele foi um dos momentos mais intensos da minha vida. Eu tinha duas filhas e eu estava caminhando para conseguir, enfim, amamentar a segunda como eu desejava.

O segundo puerpério foi um pouco mais fácil, porque, se no primeiro eu estava preocupada em sobreviver àquela avalanche, no segundo eu só estava preocupada em te amar e te alimentar de tudo o que eu tinha de melhor. Eu precisava aprender a ser mãe de duas, mas sentia que, para isso, eu precisava aprender a ser sua mãe, suprir todas as suas necessidades. Seu pai assumiu a maioria dos cuidados com a sua irmã para que eu pudesse me dedicar a você e sua amamentação.

Nos primeiros meses, com a  rotina de ser mãe de duas e uma reforma no apartamento de baixo, que não me deixava cochilar durante o dia, eu me tornei a Mamãe Lelé:

Um dia, no seu primeiro mês de vida, logo após eu o seu pai nos deitarmos para dormir, você acordou para um lanchinho noturno. Seu pai te trouxe para mim e dei de mamar na cama. Depois ele te colocou para arrotar, te embalou para dormir e te levou para o berço. Esta segunda parte (arroto, ninar, berço) eu não vi, pois estava capotada na cama.

Eis que, algumas horas depois, eu cutuco o seu pai, pedindo que ele te leve para o seu berço. Ele, assustado, pergunta se você ainda estava na nossa cama. Eu digo que sim, claro. E ele: “Depois daquela mamada ou foi outra?”. E eu: “Ah, sei lá, foi depois de alguma mamada, não lembro mais…”. Aí ele levanta para te pegar no colo com cuidado e eu falo: “Acenda a luz para não tropeçar com ela no colo”. Quando ele acende a luz, você não estava lá.

Pânico. Suspense.

– Cadê ela?, ele disse.
– Ai, meu deus, cadê ela?, repeti, assustada.

Aí ele sacou que eu estava grogue e provavelmente devia estar sonhando com a última mamada. Mas eu, ainda muito assustada, pedi que ele fosse ao seu quarto verificar se você estava no berço. Estava. E eu voltei a dormir, pois estava realmente ficando doida. Não sem antes darmos uma gargalhada, porque, né, foi hilário, mesmo quando você não acordava à noite, eu acordava achando que você está comigo. Se houvesse uma escala como a Richter para medir sono/ demência de mãe de recém-nascido, eu diria que eu estava num grau 8 de destruição.

E o pior é que esta cena se repetiu mais de uma vez, houve mais de uma noite em que cheguei perto da perda total. Mas passou, passou, shhhh.

***
Depois de muitos meses e noites mal dormidas, eu continuei te amamentando e fui aprendendo a conciliar isso com o resto. Para isso, ao terminar a licença-maternidade, pedi demissão do meu emprego e passei a trabalhar de casa. Tirei a sua irmã da escola de tempo integral e me permiti vivenciar a maternidade dupla de uma forma mais visceral e, principalmente, mais grudada, que, se não era o sonho da minha vida nem era uma opção viável na primeira filha, acabou sendo a única forma que encontrei de vivê-la dali em diante.

Por conta dela, cheguei ao cúmulo da maternidade, me coloquei em último lugar na família, me reequilibrei, aliás, ainda estou neste processo. Você vai fazer dois anos em alguns dias, segue mamando, mas já estamos (mais da minha parte que da sua, é verdade) em processo de desmame. Um desmame que não é só físico, mas também emocional. Você está se preparando para ir à escola e eu me preparando para viver outras fases da maternidade.

Eu achei que, com a proximidade de seus 2 anos e a constatação de que nesta casa não haverá mais um bebê, eu ia ficar extremamente nostálgica, saudosista. Mas não, eu estou relembrando tudo com doçura, risadas soltas e gratidão. Sim, filha, gratidão por você ter mexido nas minhas certezas, convicções e formas de maternar.

O que você não sabe, nem desconfia, quando veste o tutu da sua irmã e sai vestida de “baína” (bailarina) pela casa, é que, por sua causa, eu me tornei uma mãe melhor também para ela. Com o tempo, você me fez rever os meus valores, as minhas convicções, as minhas velhas e novas certezas, a minha rigidez, a minha preocupação excessiva (seu pai diria “neurótica”) com tabelas e padrões, as minhas vontades e minhas reais necessidades. Você fez mais por mim do que superar meus problemas com a amamentação, você ressignificou a maternidade para mim.

Se na primeira noite com você em casa eu te amamentei em todas as horas que você solicitou e chorei muito lembrando da primeira noite com a sua irmã, sem conseguir amamentar, e, de alguma forma, me sentindo mal por não ter tido forças para lutar mais pela amamentação dela, depois de um tempo a culpa deu espaço ao entendimento.

Foi você – e mais ninguém – quem me fez ver que, se eu não pude fazer o que era melhor para ela naquela época, agora eu podia fazer mais. Por você e por ela. O seu olhar melhorou o meu. E a miopia gravídica foi embora em algum momento do puerpério, mas eu estava tão ocupada sendo mãe de duas, reaprendendo a ser mãe da primogênita com você, minha caçula, que nem lembro quando nem como.

 

Paloma Varón é mãe de duas, jornalista, idealista, baiana, do mundo, curiosa, agitada, blogueira, defensora dos direitos da infância e da mulher. Morou em São Paulo, Brasília e atualmente vive na Eslovênia e escreve no blog Peripécias de Cecília e Fofices de Clarice.