Coisas são apenas coisas

Coisas são apenas coisas

Por: Mari Sá

coisas não podem te deixar mais feliz
coisas não fazem de você mais legal
coisas não devem ser carteiras de clubes
coisas são apenas coisas

mas… muitas vezes as coisas parecem que ganham esta mística. Muitas vezes! Conheça minha história.

Sou filha do um sociólogo que – ao menos – quando eu era criança era contra o consumo, de modo que eu tive poucos brinquedos e nenhuma roupa de grife, mas não era apenas uma questão de “poder-comprar”, mas de ideologia. Coisas relacionadas aos Estados Unidos, à potência imperialista mundial só entravam lá em casa sob forma de contrabando. De modo que eu nunca – NUN-CA – abri uma caixa de Barbie.

E para uma menina, esta era uma grande frustração. As minhas duas barbies foram doadas pelas minhas primas: não tinham roupas e seus cabelos estavam curtos e embolados. Um horror! Mesmo assim eu adorava aquelas bonecas, e nem uma suzie novinha (brasileira podia!) resolveu minha frustração. E preferia costurar roupas e tentar acertar o cabelos das barbies velhas do que brincar com a suzie nova em folha. Vá entender!

Recentemente uma amiga minha, dessas “abraçadoras de árvore”, meio hippies, meio socialista, de movimento social, conversava sobre o desejo da sua filha de quatro anos por uma barbie, sobre como ela achava errado estimular este lado, sobre como aquela boneca é diabólica, e tal, especialmente sobre como ela estava frustrada com o desejo da filha. Quem conhece aquela sensação que a propaganda venceu? Ela queria dizer “não!” e dar uma boneca feita por uma cooperativa de mulheres do nordeste, de algodão orgânico, igual a umas dez bonecas que a filha já tinha.

Contei o meu trauma e pedi pelo amor-de-deus que ela dessa a porra da barbie para a menina, não precisava dar nem dez, nem a noiva, nem a coleção de princesas, mas uma qualquer que trouxesse outra mensagem. Era dar ou transformar uma coisa de plástico num desejo proibido, criar uma mística em torno de uma coisa – COI-SA. Todo mundo sabe o que acontece com desejos proibidos, né?

E ela deu! Escolheu a menos pior, uma fada, acho. E depois deu uma negra. A filha brinca tanto com as barbies quanto com as bonecas de pano, quanto com a terra do jardim. A barbie é “mais um” brinquedo.

De comunista para consumista:

Assim que comecei a ganhar meu próprio dinheiro, ainda no colégio, caí de carteira nas grifes. Como eu já era velha para brincar de barbie, mirei em cheio as grifes. Passava meses, vendendo brigadeiros e acessórios feitos por mim e andando a pé para guardar uma passagem de ônibus por dia visando juntar o suficiente para minha calça jeans de grife do ano que vem. Meu pai daria o valor correspondente a uma calça do supermercado e eu completaria para comprar a que eu quisesse. E ele não ficava nada feliz com isso.

Quando passei a receber salários mensais, já na faculdade, ganhei um cartão de crédito e um limite no banco. Mesmo tendo as minhas despesas de educação, saúde, alimentação e transportes pagas pelo meu pai, me encralaquei no cheque especial diversas vezes, depois de perder o controle financeiro – tendo que recorrer ao meu paizinho comunista.

Há bem pouco tempo, bem depois de virar mãe – as lojas de brinquedos testemunharam a minha face compulsiva por barbies e coleções -, consegui exorcizar este fantasma do não-consumo. A militância do meu pai, ao invés de me ensinar, me fez resistente. Transformou coisas em desejos. Por isso tenho muito cuidado ao lidar com este assunto lá em casa.

As coisas mudaram muito: meu pai não é mais comunista e eu não sou mais consumista. É verdade que ele está longe de ser um perdulário, e eu estou longe de ser a abraçadora de árvore que queria ser: de ficar zen, de me conectar com as energias da natureza e passar imune diante de uma liquidação, de um brinquedo lindo de madeira e de um DVD da Palavra Cantada.

Afinal “é proibido proibir”, vocês sabem:

As minhas conversas com Alice sempre foram muito lúcidas e lúdicas. Não existe brinquedo proibido “de direito”, apesar de existir, “de fato”.

No natal de 2010, ela quis uma boneca que faz tudo como um bebê vivo. Além de cara, eu acho que a tal boneca é inadequada para uma criança pequena, não vejo porque uma criança deva se responsabilizar por alimentar, limpar e colocar uma boneca para dormir, dando despesas aos pais em relação a fraldas e papinhas de brinquedo. Expliquei isso a ela e disse que ela já tinha o bebê vivo dela, ali vivinho mesmo: Arthur!

Muitas amigas ganharam e ela pôde ver como a boneca funciona: é encantadora mesmo, mas só nos 30 primeiros minutos e quando não é sua. No meio do ano ela veio me contar que a tal boneca da amiga estava de fato sem pilhas, esquecida, funcionando igual a todos os bebês que não fazem nada iguais aos dela.

Ainda em 2009, ela me pediu um castelo de diamante que custava algo como R$ 400. Além de caro, era enorme e cheio de peças pequenas que iam desequilibrar meu lado monk – gente: eu posso enlouquecer tentando casar os sapatos das polys! Levanta a mão e mãe que fica meio psica quando percebe que uma peça sumiu. Confesso que evito arrumar os brinquedos dos meus filhos para não perceber o que está faltando. Eu heim!

Enfim, eu a fiz dizer “não!”: eu disse que com o dinheiro do castelo a gente podia esquiar na neve (não é mentira, R$ 400 deve dar para alugar o esqui, né-não?) e ela desistiu do castelo.

Eu – que me lembro perfeitamente deste momento – quase choro com tanta maturidade (ela nem tinha quatro anos!) e combinei de construirmos juntas um castelo de papelão. Foi lindo: toda a família e amigos envolvidos no projeto que durou uns três ou quatro finais de semana. Era do tamanho dela, tinha andares, escada e porta levadiça. A avó pintou o dito-cujo com tinta de parede rosa, as janelas ganharam cortinas floridas e os cômodos móveis de caixas de fósforo, de sabonete e de leite. Foi o brinquedo favorito dela e das amigas por vários meses.

Logo depois, me descobri grávida e a viagem para a neve ficou para depois. E ela me cobra, mas felizmente não menciona o castelo.

Quando uma criança é criança mesmo, ela não tem capacidade de entender que esses desejos de consumo são bobagens e que os objetos dos seus desejos não são capazes de trazer grandes benefícios, que uma suzie, uma boneca de ONG ou uma barbie são capazes das mesmas proezas. É importante reconhecer que estamos imersos neste mundo de consumo e que as crianças estão susceptíveis aos apelos. Os adultos podem e DEVEM dizer “não!”, mas se engana quem acha que o fato de conseguir resistir aos apelos será suficiente para obter o sucesso a longo prazo na formação de um ser consciente das ciladas do consumo e é por essas e outras que sou contra a publicidade dirigida ao público infantil e faço parte do Movimento Infância Livre de Consumismo.

Moral da história: “quem nunca comeu melado, quando come se lambuza!”

 

(Post originalmente publicado em novembro de 2011)

 

Mari é uma defensora assumida do vício do colo. Ela é mãe de dois e escreve no Viciados em Colo, onde compartilha suas idéias, teorias, dilemas e experiências. Sempre com inteligência, leveza e uma pitadinha de ironia.