Câncer

Câncer

*Post finalista do concurso O Melhor Post do Mundo, promovido pela Limetree com o apoio do MMqD*

Por: Laura Dutour

Teria feito qualquer coisa para não ter que dizer aos meus filhos que eu estava com câncer. Mãe nenhuma no mundo está preparada para dar uma notícia ruim que vai deixar os filhos tristes… ou mais do que tristes… Eles dois escutaram em silêncio e com olhares que perguntavam o que aconteceria, e eu não tinha respostas dessa vez…

Um dia depois Francisco, meu filho mais velho, apertava forte minha mão, enquanto eu esperava minha vez para entrar na sala de cirurgia. Olhei para ele e disse chorando “tenho medo”. Ele disse que também estava com medo, mas se assegurou para não deixar sair nem eu ver as lágrimas, e me consolou dizendo que tudo daria certo. Depois de varias horas de espera, ele me acompanhou até na porta da UTI, caminhando ao lado da maca e sempre segurando minha mão.

No dia seguinte Ismael, meu caçula que entrava na adolescência, teve uma permissão especial para me visitar (ele era menor de idade e não podia entrar no hospital). Desejava vê-lo, mas ao mesmo tempo não queria ele me visse deste jeito. Nunca esquecerei a carinha dele assustado enquanto eu tentava convencê-lo, como de costume, que estava tudo muito bem. Mas não era tão assim, porque eles souberam neste dia que eu tinha perdido a voz e que o tratamento a seguir era de alta radiatividade, e eu deveria passar um tempo em absoluto isolamento. A partir daí começou a primeira brincadeira: meus filhos disseram e que eu era a mulher ideal: não falava!!!

Durante a radioterapia me visitavam todos os dias, juntos com outros membros da família, e através de um vidro, dava-nos tchau com as mãos, e sorriamos intensamente. Sorrisos que ocultavam preocupações, mas que também estavam cheios de esperança. As piadas e brincadeiras não paravam, eles perguntavam: “mãe, se chego perto de você, me transformo em um monstro?”, “você é uma mãe bomba!!”

A volta para casa foi uma maravilhosa experiência. Tinha dificuldades para engolir a comida então Francisco, que naquele momento começava seus estudos gastronômicos, criou uma série de comidas especiais, macias e gostosas. Ismael me ajudava dando seu braço como um gentleman, tentando ajudar na minha dificuldades para andar. Eu continuava em silêncio, as palavras sobravam frente a tantos cuidados daqueles dois adolescentes que estavam se transformando em homens. Sempre de alto astral. Habitualmente eles faziam coisas que eu não gostava, de propósito. Sempre que querem me ver brava me chamam de Laura. E assim faziam. O diálogo era sempre o mesmo. Eu respondia com um grito “não me chamem de Laura, vocês dois são os únicos com a obrigação de me chamar de mãe”. “Ok Laurita” era a resposta a seguir, em risos… Agora eles faziam esse diálogo varias vezes ao dia, e na parte da minha fala, me imitavam falando em silêncio como si fossem mímicos. E era muito divertido! Essas brincadeiras nos ajudaram a passar o dia a dia, a cada dia.

Meu cabelo antes cacheado agora era liso, aos poucos as comidas não precisavam mais ser tão especiais, e com ajuda de uma fonoaudióloga, comecei a falar com a voz bem baixa e depois rouca, e assim aos poucos me afastava daquela mulher ideal para me converter em uma mulher real… estava me curando.

Passaram-se quatro anos desde aquele dia, anos em que, graças a D´s e a uma equipe medica incrível, e com a ajuda de minha família, os procedimentos médicos foram dando certo, até que há três meses soube que estava curada.

Como qualquer mãe eu dei sem esperar receber, mas foi tanto o que voltou… Amor verdadeiro, incondicional. Meus filhos me deram coragem, me abraçaram quando eu só queria chorar, me sorriram quando me senti desesperançada, rezaram ainda sendo ateus os dois, brincaram quando eu não queria rir e aproveitaram para falar quando eu não podia responder. Hoje são dois homens, Francisco já é um chef e Ismael está começando seu caminho entrando na maioridade. Mas para mim, sempre serão minhas crianças, e quando os vejo tocando a vida para a frente, sinto temor pelas dificuldades da vida que possam ter que enfrentar. E sempre gostaria que voltassem alguns instantes, para dentro de minha barriga onde estariam sempre protegidos.

Criei meus filhos preparada para aceitar todo que iria acontecer na vida deles. E claro que sempre eu estaria aí junto para ajudar, cuidar e amar apesar dos pesares. Repeti isso milhares de vezes. Nunca imaginei que um dia seria ao contrário. Que eles é que estariam aí, junto a mim para me ajudar e cuidar. Tantos banhos eu dei neles. Registrados na clássica foto que todas as mães temos dos filhinhos nus tomando banho. Agora, eram eles que me ajudaram a tomar banho! Tantas vezes dei a mão para ensiná-los a caminhar. Agora eram eles que me entregavam o braço para eu me apoiar e sair andando em curtos passeios até a esquina de minha casa. Tantas comidinhas de neném e historias infantis para lhes estimular na hora de comer e agora eram eles que brincavam que eu era uma criança levando a comida na minha boca. Tantas vezes repeti para lhes fazer ouvir e dizer aquelas primeiras palavras. Agora eram eles que me ensinavam a falar…

Eles são dois homens muito lindos, altos, divertidos e inteligentes. Obviamente não seria uma mãe, se não falasse assim das qualidades dos meus filhos! Como não lembrar para sempre, daquele dia que Francisco brigou muito com o pessoal do hospital, com a típica insolência dos 18 anos, dizendo que estaria de olho, controlando, para ver se alguém me faria sofrer, por ter-lhe dito que eu estava com medo. Ou aquele dia que se ofereceu para me ajudar a pagar as contas com o dinheiro do seu primeiro emprego, dizendo para eu não me preocupar com o fato de não poder trabalhar por um tempo. Como não lembrar para sempre aquele dia em que eu avisei Ismael que eu estaria algumas horas em uma câmara nuclear especial, sem poder falar nem me comunicar com ninguém, e apesar disto meu celular não deixava de tocar e tocar, vendo o nome dele na tela do aparelho, o que me levou a parar o exame para responder, pensando que alguma coisa ruim tinha acontecido com ele… Era para saber simplesmente se poderia comer um sorvete da geladeira! Como esquecer aquela manhã de domingo que o meu caçula entrou em casa chorando porque tinha sido assaltado e tinham levado seu celular… Saímos para a rua, eu quase sem falar, quase sem andar, e entramos em um carro da policia para perseguir os ladrões…e os achamos!!! Eles sempre souberam que eu estaria sempre para eles, mas eles me mostraram que estiveram sempre comigo também. Amor incondicional, recíproco, em qualquer momento e lugar.

Não sei como será minha vida futura, aliás, quem sabe? Somente sei que a palavra câncer, que tanto nos assustou, agora era uma palavra real e possível; aqueles meses de tantas dificuldades e incertezas passaram a ser divertidos e esperançosos; aqueles anos de dificuldades e tristezas se transformaram grandes triunfos e aprendizados. Nos dias de hoje, moramos em países diferentes. O câncer deixou no meu corpo uma alta intolerância ao clima frio. Eu preciso de climas calorosos para viver melhor e por isso estou aqui, na cidade maravilhosa de Rio de Janeiro. Graças à tecnologia do século XXI estamos unidos e informados do que acontece no dia a dia com a vida de todos nós. Eu espero que eles estejam morando por aqui em pouco tempo… Mesmo com toda tecnologia, não é a mesma coisa que poder abraçar e estar perto. Claro que não, mas nós três aprendemos a agradecer termos chegado até aqui e superado esse enorme desafio. Eu sempre disse que não me importo se eles moram longe, que o importante é que estejam bem e sejam felizes. E eles dizem a mesma coisa quando se trata de mim.

Francisco e Ismael são dois grandes amores, amor visceral, que emociona tanto como aquele dia que chorei e chorei por eles, e chorei tanto que sentia que chorava água cristalina. Um dia, daqueles não tão felizes, me disseram em estilo bem divertido “se fôssemos ao mercado de mães, compraríamos vocꔓEu também comprei vocês dois, e fiz o melhor negócio de minha vida!”. É o que lhes digo.