Amor Miojo

Amor Miojo

Por: Yara Castanho

Antes de ficar grávida eu acreditava em tudo que mostravam nos filmes, propagandas, livros e afins sobre maternidade. Que ia querer uma cesárea agendada com tummy tuck, ultrassom 3 e até 4D. Que o bebê iria chegar todo fofolete e iria para os meus braços limpinho e pronto para receber meus beijos e abraços cheios de lágrimas de felicidade. E então iria mamar e mamar, como se não houvesse amanhã…

Daí, menina, aconteceu! Fiquei grávida! E muitos dos meus conceitos mudaram, outros surgiram e ganhei um companheiro funesto chamado medo. Sim, ele foi parte integrante de todo o processo.

Medo da dor, medo de a minha filha não gostar de mim, medo de nunca mais ficar sozinha (sou meio do contra), mas o medo mais medonho era o de não gostar dela. Sim, era aqui que eu queria chegar. Socorro! Chama o exorcista que a menina está endemoniada!

Pensei que era uma pessoa terrível! Alternava entre momentos de ternura que transborda para momentos de medos quase indizíveis como este.

Cadê o amor de novela? Cadê a barriga gasta de tanto receber carinho?

Em alguns momentos queria voltar aos meus 16 anos, toda livre e sem amarras, em outros me sentia a mais plena das criaturas, pronta para dar à luz o ser mais amado de todo o universo.

E esses sentimentos não vinham assim aos pinguinhos não. Vinham aos borbotões! Perdia o chão, tinha ódio do meu corpo (ainda trabalhando nesse aspecto), depois chorava corroída de culpa. Em nenhum momento me arrependi da decisão de ser mãe, mas titubeei sobre a minha capacidade de ser mãe. O que me salvou nesse período foi o apoio do meu marido. Super paciente e carinhoso, que conversava comigo e me renovava de energia.

Os meses passaram e junto com meu corpo minhas ideias também mudaram. Não todas, mas muitas.

Então chegou Katarina. De parto normal, com alguns percalços, mas humanizado, gratificante e bonito, o quanto se permite pela quantidade de sangue. Linda e feia. Pequena e grande.

Confesso (confissão porque está de alguma forma ligado ao pecado) que não me senti invadida por um calor de amor. Amava sim aquela coisinha que chorava nos meus braços, mas do meu jeito. Tinha muito mais curiosidade. O que me invadiu foi uma vontade imensa de cuidar, de proteger. Quase que queria colocar de volta dentro da barriga (mas no estilo Roberto Carlos, não usar a mesma porta que saiu para entrar, porque aquela ali estava fechada para manutenção).

As horas foram passando, a gente foi se conhecendo, se tocando, se sugando…

Os dias foram passando, eu já sabia mais sobre o ritmo dela…

As semanas foram passando, a gente se olhando nos olhos o tempo todo…

Os meses foram passando e ela completou 4 meses. A gente se olha, se morde, se baba, ri e eu simplesmente não gosto de imaginar minha vida sem ela. Posso, mas não gosto. Acho chato e triste.

Não quero dizer que aquele amor instantâneo não existe, que é mito. Não é isso. Só quero dizer que meu amor não é miojo, a gente vem construindo e solidificando o tempo todo.

 

Yara Castanho: Paulistana de 28 anos que mora na Dinamarca, é casada com um sueco, é barista e apaixonada por café, e o mais importante: MAMA DA KATA

 Imagem by bluebyers – Thank you!