Água com glicose na maternidade

Água com glicose na maternidade

Por: Roberta Lippi

Estava na maternidade visitando uma amiga que havia acabado de ter bebê (aquela mesma que não podia ter filhos, lembram da história?). Saí do quarto e ela foi comigo até o corredor se despedir e dar uma espiadinha no filhote que a enfermeira havia acabado de levar pra trocar. A enfermeira estava de costas, então nos dirigimos ao vidro lateral do berçário pra dar aquela fuçadinha básica e vimos que ela estava dando uma solução aquosa pra ele no copinho.

Achamos estranho e minha amiga foi lá perguntar o que era aquilo.

– É água com glicose, respondeu a enfermeira.
– Mas por quê?
– Esse é um procedimento do hospital e é prescrito pelo pediatra para todos os bebês. Tanto a água com glicose quanto o Nan.
– Ah.

Achamos aquilo estranho, afinal estava tudo tão bem e tão calmo com o bebê!

Outra coisa que nos chamou a atenção foi que a moça usava esmalte escuro, unhas compridas, pulseira e anel – nada muito apropriado para um berçário neonatal . Ela era a única naquela seção que se apresentava assim. E era a enfermeira mais arrogante do pedaço, por sinal. Não tinha a menor paciência para responder às dúvidas de uma mãe de primeira viagem. Ou seja, rolou um azar ali também.

Fui embora dali encanada com essas histórias. Quando eu tive a Luísa (naquele mesmo hospital), tinha muito menos informação e mais tranquilidade do que hoje. Então eu entregava a bebê nas mãos das enfermeiras e confiava naquilo que estava sendo feito pelo hospital. Mas agora eu penso diferente e resolvi agir. Em nome da minha amiga, da minha posição de  mãe-blogueira-jornalista-comprometida e também em causa própria, já que a ideia, até então, era ter a Rafaela ali também.

Cheguei em casa e liguei para a assessoria de imprensa, na posição de blogueira. Fui prontamente atendida – e percebi ali o quanto os blogs hoje são ouvidos pelas empresas. A assessora me ligou horas depois já tentando identificar a enfermeira em questão, alegando que tal postura não era padrão do hospital.

Quando a assessora me retornou, a coordenadora médica da maternidade já havia mandado, segundo ela, comunicado a toda a equipe de enfermagem reforçando a questão da proibição do uso de pulseiras, anéis e unhas compridas (o esmalte escuro, segundo ela, não é proibido). Ok. Nesse caso, tudo resolvido.

Encanei mesmo foi com a água com glicose e insisti em obter uma resposta do hospital. E a resposta veio depois, por meio da supervisora do atendimento ao cliente:

– A água com glicose é um procedimento autorizado e aplicado pelo hospital, com a prescrição do pediatra, apenas nas seguintes situações: casos de hipoglicemia; bebês que estão em tratamento de fototerapia; ou quando a mãe não teve colostro.

O fato é: nenhuma dessas situações se encaixava no caso da minha amiga. Ou seja, ficou claro ali que a enfermeira deu a água com glicose como um “sossega leão” porque o bebê (que tinha acabado de mamar) estava chorando. Oi? Bebê recém-nascido chorando? Que coisa estranha, não?! Bom, ainda poderia ter sido pior: ela poderia ter dado NAN!!! O hospital ficou de investigar melhor o fato e tentar apurar com a tal enfermeira, mas não obtive mais resposta depois daquilo.

De fato, havia prescrição do pediatra no prontuário do filho da minha amiga, assim como tinha a prescrição para todos os demais bebês daquele berçário. Na verdade, o pediatra deixa a prescrição pronta e as enfermeiras é que determinam se há necessidade de aplicar ou não conforme o caso, já que são elas que acompanham os casos mais de perto. Depois daquilo, minha amiga ficou tão encanada achando que o bebê estava grogue que não deixou mais o filho sair de perto dela.

No dia seguinte, o pediatra da minha amiga foi visitá-la e ficou irritadíssimo com a história. E olha só: esse pediatra, inclusive, é o que dá o curso para gestantes do próprio hospital e prega fortemente no curso que não se deve dar NADA além do leite materno para os bebês em condições normais. Ele disse que esse embate entre os médicos e enfermeiras é uma questão bastante antiga e séria dentro dos hospitais, já que são elas que estão na ponta do atendimento às mães e aos bebês. Faço questão de deixar claro que respeito muito a profissão das enfermeiras, sei que elas estudam muito para estarem onde estão e muitas são até mais preparadas do que muitos médicos. De forma alguma estou generalizando. Só estou relatando o fato porque achei que era minha obrigação. Não que a água com glicose tenha causado algum mal maior ao bebê, mas sim por ser um procedimento desnecessário e aplicado só para deixar o bebê calminho.

Ou seja, se acontece ali, em um dos hospitais mais conceituados de São Paulo, certamente acontece em outros. Não acredito que aquele tenha sido o único caso e que demos tamanho azar em presenciar o fato. Minha amiga deu azar, sim, em ser atendida por uma profissional arrogante e sem paciência.

Se você, futura mãe, prefere confiar no hospital e não encanar com essas coisas (como eu fiz no caso da minha primeira filha), está tudo certo, não quero causar grilos em ninguém. Agora, para quem está mais antenada e fica indignada com esse tipo de atitude (como eu, nesta segunda gestação), vale o registro. Acredito que, quando reclamamos, fazemos a nossa parte – inclusive em benefício do próprio hospital e das demais mães e bebês.

 

Post publicado originalmente em junho de 2010

 

Roberta Lippi é mãe da Luísa e da Rafaela. Nas horas vagas, jornalista e Mamatraca. No Twitter: @RoLippi 

(Aliás, o Mamatraca esta semana está discutindo partos – imperdível!)