A vida é um bumerangue

A vida é um bumerangue

Por: Giuliana Vaia

Fui chamada na escolinha da Nalu por motivos de “reunião individual”. Ferrou.

Chego lá, minha cria derramando litros de lágrimas apontando para a marca de uns 8 dentes no bracinho.

Den-tes.

Minha filha, aquela princesinha que crio com todo amor e carinho e protejo leonicamente dos revezes da vida, fora brutalmente abocanhada por um tiranossauro rex da classe dela.

Arthur o nome do delinquente.

Meu sangue fervilhou e baixou a Sandra Rosa Madalena na porta daquela escola que só Sidney Magal poderia exorcizá-la de mim. Como assim vocês permitiram essa atrocidade? Quem é esse menino? Filho de chocadeira? Cadê a mãe dele? O pai? São corinthianos? Como criam esse moleque? O que comem? Do que vivem? Já passaram no globo repórter?

A professora me pediu desculpas por ‘não ter visto’ e disse que nessa idade, as crianças costumam morder os coleguinhas mesmo, que é normal, blablabla.

Normal pra quem, cara pálida? Normal pra quem é mal criado, pra quem não recebe atenção em casa, pra quem não aprendeu sobre modos e não sabe ensinar aos filhos. Ou pra índio que vive no mato. Ou onça.

Quis escrever um carta com sangue nozolhos pra mãe dessa criaturinha, falando sobre a importância da educação, da presença, dos bons modos, que eu não gostaria que isso se repetisse, que minha filha é uma lady e o filho dela um monstro subaquático… mas me contive e não escrevi nada. E até hoje, a mãe do Arthur nem desconfia que eu estava pronta a arrancar os olhos dela com o garfo.

Dia seguinte me chamam na escola novamente. Ja fui pisando duro e cuspindo prego.

– Que que foi agora?

– É que Nalu mordeu a Maria Fernanda e…..

– Qual o telefone da mãe do Arthur por favor?

– Do Arthur? Mas ela mordeu Maria Fernanda…

– Sim, mas eu quero a mãe do Arthur.

– 34xx-xxxxx

– Alô, mãe do Arthur? Aqui é a mãe da Nalu, você poderia encontrar comigo as 17h na pracinha perto da escola pra gente se abraçar? Por favor?

Oi?

 

Post originalmente publicado em fevereiro/2013

 

Giuliana é colunista da revista Pais & Filhos e autora do bem humorado e insone Lulu não dorme , blog dedicado à insônia de sua filha Lulu (e consequentemente à dela própria).