A verdade sobre o bom velhinho

A verdade sobre o bom velhinho

Por: Ana Cristina Tamiso

– Mãe, as meninas do colégio estão rindo de mim porque eu acredito em Papai Noel. Mas mãe, eu acredito MESMO porque VOCÊ falou pra mim que ele EXISTE. E você NÃO MENTE!

Me senti como se tivesse pisado num espinho; uma dor aguda e lancinante. E agora? O que eu deveria falar? Dizer que eu menti por todos estes anos? Seria uma contradição com o ensinamento dado de SEMPRE DIZER A VERDADE! Belo exemplo o da mamãe…

Está certo, passei tempo demais alimentando a fantasia. Relutei em contar-lhe a verdade aos 7 anos. E aos 8 também.  Idem aos 9. Com grande esperança, aguardei que um dia ela viesse me dar a notícia de que o Papai Noel não existe e, então, eu fingiria levar um grande susto. Mas este  momento não chegou. A confiança dela em mim é tão grande, que ela sequer questionou a não existência dele.

Para mim, este é o tipo de informação que deixa a vida da criança com um pouco menos de magia e um montão de realidade.

Como não tinha mais como adiar a verdade, convidei-a para tomar chá da tarde comigo numa padaria bacana. Nos sentamos, uma de frente para outra, ela me olhando com um olhar profundo e curioso e eu, tremendo e já atacando a segunda fatia de bolo de chocolate, comecei a conversa:

– Então, Clara, você REALMENTE acredita em Papai Noel?
– Claro que sim! VOCÊ falou que ele EXISTE!
– Mas querida, como você acha que uma só pessoa é capaz de entregar presentes para todas as crianças do mundo??
– Ah, mãe, ele é mágico!

Contei a ela que o mito do Papai Noel nasceu da história de Nicolau, um homem bondoso que dava doces para as crianças na época do Natal e que a crença neste símbolo tinha o objetivo de preservar o espírito de doação e solidariedade desta época do ano.  Expliquei que éramos nós, os pais,  quem comprávamos os brinquedos escolhidos por ela e disse que sempre poderíamos pedir amor, paz e alegria para São Nicolau, que seríamos atendidas. “Mas e a fábrica do Papai Noel?”, quis saber.
E a conversa foi mais ou menos assim,  até os olhinhos dela se encherem de lágrima, diante do entendimento inevitável da verdade; como se tudo isto fosse demais para suportar. Chorei também (devorando o terceiro pedaço de bolo) porque vi que um pouco de sua infância inocente havia ficado para trás. Me lembrei do primeiro Natal que passamos juntas, dos preparativos para a festa, da decoração da árvore, do seu vestidinho, da vontade e do medo de ver o Papai Noel, do escorregador chegando no trenó…

Me emocionei ao perceber como o tempo passa depressa.

Ao final da conversa ela resolveu facilitar para mim e mostrar sua maturidade. Sabiamente resumiu:

– Entendi, mamãe! O Papai Noel só pode nos dar SUBSTANTIVOS ABSTRATOS; os SUBSTANTIVOS CONCRETOS são os pais que dão!!

– É isto mesmo, querida, você entendeu direitinho.

 

Post originalmente publicado em Novembro/2011

 

Ana Cristina, louca varrida, lelé da cuca, matusquela, meio diferente. E completamente apaixonada pela radical aventura de criar 4 filhos!!! QUATRO!!! Você já parou pra pensar??? Autora do blog Eu com os quatro.