A sociedade em rede: alternativas ao sistema tradicional de ensino

A sociedade em rede: alternativas ao sistema tradicional de ensino

Por: Anna Haddad

O mundo está mudando. Estamos todos saindo de uma sociedade descentralizada e passando a viver uma sociedade super distribuída, onde não há centros: nos organizamos em rede, a dois passos de tudo e de todos. Com a internet, as redes sociais e várias outras ferramentas, passamos a viver altamente conectados. Mas e daí?

E daí que nesse novo mundo de alta conectividade e interação, o sistema tradicional de ensino parece obsoleto. Explico. Desde os primórdios de sua criação, a escola guarda a mesma estrutura. Obedece a um antigo modelo industrial de formação em massa, derivado do período de revolução industrial, onde o importante era produzir seres minimamente preparados para cumprir ordens e atender às demandas do mercado de trabalho. Grade bem definida, disciplinas segmentadas, provas periódicas, e a figura de um professor pulso firme, detentor de todo o conhecimento. Era assim, e ainda é. De lá, saem indivíduos formatados para se encaixar em um universo pré-concebido pelas gerações anteriores.

E não se trata de dançar entre os mais variados modelos pedagógicos existentes. De modo geral, as escolas reproduzem um padrão antiquado, encaixotado e pouco flexível, que peca por não oferecer a interação e os estímulos necessários às crianças e adolescentes da nova geração conectada e multifacetada. O resultado da incongruência são crianças angustiadas que viram, mais tarde, adultos pouco criativos, incapazes de questionar a sociedade em que vivem, transformar realidades, criar os próprios empregos.

Esse diagnóstico já vem sendo feito há muito tempo – fora e dentro do Brasil. Como consequência, surgiram novas escolas, pautadas em conceitos de independência e interdisciplinaridade, projetos de aprendizagem alternativa, fora das escolas, e inúmeros movimentos que estimulam a conexão entre as pessoas e suas comunidades.

E é aí que eu e a Camila, minha irmã, entramos. Paramos para prestar atenção em todos esses movimentos complementares da educação tradicional há pouco, quando nos achamos adultas, lotadas de diplomas e perdidas em um mercado que parecia não nos caber bem. Decidimos, então, que precisávamos ser parte do processo de mudança e fundamos o Cinese.me, uma plataforma de compartilhamento de conhecimento.

A ideia por trás do site é a de que qualquer um – crianças, jovens e adultos – pode aprender qualquer coisa, com qualquer pessoa e em qualquer lugar, sem a imposição de conteúdos, burocracias, ou uma estrutura pré-definida. E a de que quase tudo pode ser fonte de inspiração, como as cidades e as pessoas.

No site, qualquer um pode propor encontros ou participar de encontros propostos por outros. Desde uma aula de culinária básica em um café da vizinhança até um encontro de contadores de história no Parque do Ibirapuera. Vale também aulas coletivas de física quântica ou um workshop de design. Quem propõe o encontro decide o local, a data, o horário e, se quiser, pode também precificar. Os interessados se inscrevem através de uma plataforma de pagamento seguro, e pronto. Os encontros acontecem. Ou melhor: as pessoas, com a ajuda da plataforma, fazem os encontros acontecerem. Nesse contexto, as crianças podem, desde que acompanhadas e guiadas pelos pais, propor ou participar de qualquer encontro.

Não pretendemos propor substituição às escolas, mas sim alternativas para a rotina escolar, acadêmica ou de trabalho, que, por muitas vezes, engessa e acomoda.

Acreditamos, de verdade, que não há nada melhor que a troca de habilidades, conhecimentos e experiências para que haja real aprendizagem. E, de quebra, com os encontros presenciais, vem a conexão entre as pessoas. Essa coisa linda que andamos fazendo tão pouco nas nossas vidas tão atarefadas, cheias de urgências e prioridades.

Torcemos para que, através do Cinese.me, as pessoas voltem a aprender e se conectar daquele jeito antigo, das nossas avós. Um dando um pouquinho do que sabe para o outro, olho no olho.

Anna Haddad é advogada e empreendedora social. Se apaixonou por educação e fundou a plataforma de crowdlearning Cinese.me