A retomada, a soneca e a mãe que eu quero ser

A retomada, a soneca e a mãe que eu quero ser

Por: Celina Poersch

Nada melhor para o primeiro dia do ano do que um post novo. Ainda mais quando eu já tinha até colocado uma lápide em cima do blog. Considerava ele mortinho. Uma morte precoce, mas já esperada, uma vez que nunca se dedicou a ele muita atenção e cuidado. E partiria do mesmo modo que levou sua breve existência: discretamente, praticamente no anonimato, sem causar grandes comoções. Mas eis que me deu vontade de falar só mais uma coisinha. E eis que a vontade aconteceu justamente quando eu tinha tempo livre. O que é coisa cada vez mais rara, principalmente agora que eu resolvi aproveitar meus poucos momentos livres de uma outra maneira: dormindo.

– Ohhhhhh! Como assim, dormindo?
– Bem assim mesmo.
– Mas dormindo no meio do dia, em hora que não é pra dormir?
– Sim. No meio da manhã, pra ser mais específica.
– E isso é coisa que se faça? Uma mãe, com dois filhos, com casa pra cuidar, com roupa pra lavar e com comida pra fazer?
– Se é coisa que se faça eu não sei, só sei que é coisa que eu faço.
– E não sente vergonha na cara.
– De jeito nenhum. Sentiria até pouco tempo atrás, mas cansei de estar sempre cansada. Decidi que era melhor ser uma mãe que dorme no meio da manhã do que uma mãe que mal se aguenta em pé e chega no final do dia torcendo pra que os filhos e o marido esqueçam da sua existência.

Esse foi o diálogo que tive com a minha consciência assim que decidi por em prática meu projeto de dormidas matinais. Venci a danada e agora sigo assim: continuo fazendo tudo o que fazia: arrumo a casa, lavo louça, guardo louça, ponho roupa na máquina, tiro roupa da máquina, faço almoço, dou banho, tomo banho (muito importante), ajudo no banho, ajudo na lição, pego filha na escola, faço suco, corto fruta, dou lanche na boquinha, canto musiquinha, faço pocotó, aviãozinho, piu-tchá-tchá e bambalalão, brinco de faz de conta, conto historinha, vejo um pedaço do filme, durmo no outro pedaço.

A diferença agora é que, depois do agito da manhã, depois que a Clara foi pra escola e o marido foi trabalhar, depois que o Theo mamou, fez cocô, brincou, comeu fruta, fez cocô de novo e começou a ficar chatinho, cheio de sono, pronto pra dar mais uma dormidinha, em vez de colocar ele no berço e sair correndo pra maratona da arrumação, vou junto com ele pra cama. Ficamos um tempo conversando, fazendo carinho um no outro (apesar de eu ainda ter dúvidas se ele quer mesmo me agradar ou quer arrancar metade da minha bochecha, furar meu olho e tirar meu cérebro pelo buraco do nariz) e logo pegamos no sono. E a guardação e lavação, que antes estavam finalizadas as dez horas da manhã, ficam pra depois. E se não der tempo hoje, ficam pra amanhã. E se não der tempo de ler e escrever no blog, fica pra depois de amanhã.

Quando acordamos, cerca de uma hora depois, ainda conseguimos brincar mais um pouquinho, aproveitando o fraco solzinho do inverno inglês, que de vez em quando ainda dá as caras por aqui. Acho que, com isso, dei mais um passo em direção a construção da minha identidade de mãe, o que, certamente, contribui pra que eu me sinta mais confortável, confiante e em paz comigo mesmo nesse papel que ainda parece novo pra mim (sim, porque depois de quase oito anos exercendo essa função posso dizer que ainda não sei exatamente que tipo de mãe sou, devo ser ou quero ser).

Um passo talvez ainda mais libertador do que o primeiro que considero ter dado na mesma direção, que foi o do “yes, I can”. Depois daquelas milhões de dúvidas e incertezas sobre minha capacidade como mãe, foi muito bom descobrir que eu posso. Posso cuidar, com muito amor e paciência, de um ser completamente dependente e indefeso, posso trabalhar muito o dia inteiro, a semana inteira, o mês inteiro e continuar cuidando e dando muito amor para ele, posso ficar a noite toda acordada do lado dele dando remédio, mamadeira, copo d’àgua, colinho, carinho ou a mão, posso ficar doente e continuar fazendo tudo isso, posso brincar, ensinar, educar, conversar, levar, buscar, alimentar, beijar, apertar, amassar.

E agora, com o segundo passo, sei que, mesmo tendo dois serzinhos desses em casa, também posso descansar. Essa seria, então, a fase do “yes, I could”. Eu poderia estar limpando a casa/ passando a roupa/ descascando a batata pro almoço/ me atualizando sobre a situação da Síria/ lendo sobre psicologia e desenvolvimento infantil antes que ele acorde ou ela volte da escola. Sim, eu poderiiiiia. Mas hoje não vou fazer nada disso. É essa mãe que quero ser: capaz de amar muito, fazer qualquer coisa para os filhos e passar muito tempo juntinho deles, mas que, ao mesmo tempo, sabe que não estará amando menos nem sendo menos importante como mãe e como pessoa se conseguir reconhecer suas fraquezas e fazer concessões quando necessário e adequado.

Sei que é tudo muito dinâmico nessa vida de mãe e as necessidades minhas e dos meus filhos muito em breve não serão mais as mesmas. Mas o importante é ir se adequando e fazendo o que manda o nosso bom senso. Agora, por exemplo, o meu bom senso diz que um soninho seria muito necessário e adequado. Noite anterior muito mal dormida, dias de muita atividade, casa mais ou menos organizada e ninguém precisando de mim. Theo, dá um espacinho aí na cama pra mamãe!

E no fim, o que eu iria escrever nesse post acabou não sendo escrito. Vai ter que ficar pra amanhã (ou pra depois).

Celina, mãe da Clara e do Theo, autora do “A Vida Secreta das Mães“, doutora em biologia molecular que, após anos de estudo, descobriu, em casa, a coisa mais importante que o DNA pode fazer: um filho.