A microfísica do poder nos parquinhos infantis

A microfísica do poder nos parquinhos infantis

Por: Ludmila

Costumo levar meu filho de três anos aos parquinhos e praças públicas da cidade onde moro com certa frequência. Meu sonho é ter um quintal, mas como vivemos em apartamento, faço o máximo que posso para garantir que ele não vai quebrar tudo em casa esse tão importante contato com a natureza. O engraçado é que outras pessoas também tem essa brilhante ideia, ó que coisa?

E ali a gente vê de tudo: pai desajeitado que só brinca com a cria finais de semana e não consegue tirar os olhos do relógio ou do telefone, pai que se entrega e encarna o lobo mau sem medo do ridículo, criança que mal interage com a babá em seu uniforme invisibilizador, mãe com nojinho de enfiar o salto na areia, mãe pé no chão tentando convencer a filha a não ter nojinho da areia… Enfim, um precioso microcosmo da nossa sociedade. Prato cheio para os antropólogos.

Aí começam as primeiras saias justas da difícil convivência com os outros, como o partilhar dos brinquedos. Acho fascinante esse momento, tão banal e tão revelador ao mesmo tempo. Meu filho espalha os brinquedos de areia que habitam no porta-malas do nosso carro e eu fico só esperando, me sentindo como aqueles investigadores de filme numa tocaia (quem disse que vida de mãe não tem emoção?).

Frequentemente a seguinte cena se repete: criança menor avista brinquedos e arregala os olhos. A atração é irresistível, e seu corpo desengonçado vai em direção aos brinquedos sem pensar duas vezes. Antes que ela consiga por as mãozinhas rechonchudas na forma de peixinho, porém, sua mão é gentilmente parada pela mãe, que diz “não fulano, esse brinquedo é do amiguinho ali. Você não pode pegar“.

Vejam bem, a criança mal chegou a este mundo e já se vê confrontada com uma situação confusa dessas. Porque não posso pegar, se o brinquedo está bem ali, ao alcance das mãos? Porque ele pode pegar e eu não? Quem é esse tal de amiguinho afinal, que nunca vi antes?

Melhor ainda se a criança tem seus próprios brinquedos, e é obrigada a cede-los sem a menor explicação ao tal “amiguinho”, que a esta altura já não parece nada amigável… Aí dá um nó na cabeça. Que lógica torta é essa? Como podemos ensinar algum tipo de valor aos nossos filhos, se o que vale para um não vale para o seu semelhante? Se a sua individualidade é aniquilada em nome de uma suposta – e absurdamente teatral – “boa educação”?

Educação, a meu ver, tem mais a ver com coerência do que com normas impostas sem questionamento. Percebo olhares de assombro quando respeito a decisão meu filho de não emprestar o que quer que seja a uma criança, como se estivesse confabulando com sua ganância. Mas me diga uma coisa, você emprestaria um objeto – novo ou velho, mas muito querido seu – a um completo estranho na rua? Sei que eu não.

Mas também sei que, depois de uma conversa em que se explica as vantagens e desvantagens da negociação (o que toda troca social é, no fim das contas), ele normalmente é capaz de decidir por conta própria emprestar. Ou não, se ele definitivamente não for com a cara da criança – afinal, química é uma coisa que rola desde cedo e tem seu lugar.

 

Ludmila Carvalho, 34 anos, mãe do pequeno Marcel, jornalista, professora e cozinheira.