A menina que solta pipa

A menina que solta pipa

Por: Léo Vargas

Um jovem executivo, no auge da sua vida profissional, com uma carreira consolidada, mas ainda em ascensão, caminhava apressadamente todos os dias pelo mesmo trajeto em direção ao trabalho. Num dia, seguiu de carro e ficou preso no tradicional trânsito da cidade grande, só assim ele conseguiu observar as coisas que aconteciam ao redor, os prédios, pessoas…

Em sua observação, percebeu num casarão antigo que ficava acima do nível da rua, uma menina com os cabelos esvoaçados soltando uma colorida pipa com alguns papéis amarrados na linha.

O carro andou, o dia passou e já estava na hora de voltar para casa, aproveitar as poucas horas de sono para recomeçar a rotina bem disposto no dia seguinte.

Logo pela manhã ele pegaria novamente seu carro, mas decidiu que faria, mais uma vez, o caminho a pé, era incrivelmente tranqüilo desta forma. E seguiu seu caminho passando pelos mesmos prédios, ruas, casas e o casarão com a menina soltando pipa e coisas amarradas na linha. Desta vez, ao olhar para menina, deu um sorriso e foi retribuído com um longo e contente aceno de mãos.

Esse ritual durou algumas semanas e em todos os dias a menina estava no casarão com sua pipa no ar.

Como poderia acordar tão cedo?
Por que aquelas coisas penduradas nas linhas?

Decido a fazer um teste, o jovem decidiu traçar seu caminho num sábado e ver se aquela menina também estaria na casa.

Surpresa! Ela estava e com a mesma alegria e disposição de todos os dias. Ambos começaram a conversar e os assuntos fluíam com uma enorme naturalidade, a menina já estava concluindo o 5º período e sua notas eram louváveis, tinha muitos amigos, mas só os encontrava no colégio.

Quase na hora de voltar para casa, o rapaz perguntou o que eram aqueles papéis amarradinhos na linha.
Ela retirou um deles, dobrou e entregou nas mãos do moço, que preferiu ler na hora de dormir.

Ao abrir o papel ele leu: “Moço das nuvens, eu sei que meu pai está aí, peça para ele fazer as pessoas olharem para mim enquanto te mando essa mensagem e ver que a vida é muito gostosa e pode ser colorida e feliz. Todas elas passam por aqui de manhã com a cara muito feia.”

Engoliu seco.
Dobrou o papel e não conseguiu dormir.

Logo pela manhã, era domingo, ele partiu para o casarão da menina.
Ela sorriu e ele retribuiu com o maior sorriso que já tinha dado na sua vida inteira.

Depois de uma conversa, ele descobriu que a pequena e feliz criança tinha perdido o pai há algum tempo numa discussão de trânsito enquanto ele seguia para o trabalho. Depois daquele momento, fez a promessa de escrever aquela mesma mensagem todos os dias, até que alguém, algum dia, mudasse a cara feia por um grande sorriso. Ela precisava que as pessoas deixassem de lado toda canseira e dureza da vida por um momento de olhar a pipa colorida.

E como em todo história real, ele seguiu sua vida com uma reflexão a mais. Enquanto ela, a pedido dele, não parou de levantar suas pipas pelas manhãs.

 

 

Léo é pai da Laura, ama a vida e tudo que ela lhe traz. Uma destas coisas que a vida trouxe foi seu maior presente do mundo inteiro, a pequena – e forte – Laura. Ele escreve sobre ela no blog Coisa de Pai.



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