A mãe, os vinhos e a alegria de um pilequinho fora de hora

A mãe, os vinhos e a alegria de um pilequinho fora de hora

Por: Mari Zanotto

(postado originalmente publicado em maio/2012)

Daí que sobrevivemos ao feriadão prolongado e aos filhos entediados por causa da chuva. Depois de muitas camadas de agasalhos, muitas sessões de Kiriku, muita pintura/colagem e de uma tarde inteira dentro do SESC, cá estou de volta, para apenas agora me dar conta de que eu ESQUECI de programar uma postagem para hoje. Oh boy.

E o que faz uma mãe pega de calças curtas? Picareteia, claro. Com um texto antigo de sua própria lavra, já reblogado em outros carnavais e que nem fala sobre maternidade. Porque, cá entre nós, quem ainda aguenta falar de filhos depois de um feriadão todo familiar desses, hein? Hoje não vou falar de filhos, vou falar de álcool, pileque, jantar a dois e dos farsantes que somos, eu e maridão. História verídica e que me fez lembrar que eu definitivamente estou precisando de mais vinho nessa minha vida…


Ontem foi dia de despachar Alice pra casa da avó pra ir me embebedar numa degustação de vinhos.

Esse universo dos vinhos é engraçado. Ao mesmo tempo em que é pedantíssimo, é divertido e até simpático. Tem coisa mais simpática do que um monte de adultos afundando o nariz na taça e dizendo, hum, esse vinho está fechado, quase discreto, já este está se abrindo, se revelando, sinto notas de xixi de gato, tabaco e frutas vermelhas?

Éramos 13 pessoas numa mesa de restaurante – 11  profissionais, entendidos ou ao menos simpatizantes do assunto, mais o Carlos, que engana direitinho, e eu, que gosto de Sangue de Boi, Chapinha e afins (mas tive o cuidado de não mencionar isso à mesa, claro).

Missão: degustação às cegas. Cada um recebia 3 taças numeradas e uma tabela de avaliações, mais a ficha técnica de cada amostra. Tudo em branco, pra gente completar no decorrer da degustação.

Pra começar, o senhor simpático que conduzia a ação já entrega: as 3 amostras são de Cabernet Sauvignon da Argentina. Todo mundo anota na ficha, e tenho meu primeiro momento de tensão: não tenho lá muita certeza de como se escreve isso. C-a-b-e-r-n-e-t, com T mudo no final, S-a-u-v-i-g-n-o-n, é assim?, pensei tampando meu papel por medo de olhares críticos dos meus vizinhos.

Aí a brincadeira começa pra valer.

TESTE VISUAL – Olhar para o vinho. Notar a cor. Pôr o papel branco atrás das taças pra comparar, e por fim anotar comentários e dar notas de 1 a 3.

Ok, fácil: o vinho 1 é cor de vinho. O 2 também. E o 3 também. Iguaizinhos. Mas ouço os meus colegas falando bonito, dizendo que esse é cereja escuro e aquele é vermelho profundo, levemente mais brilhante do que aquele outro, o que tem unha maior (???) e lágrima mais persistente (???). Hum. Então dou notas 3-2-3, pra mostrar que eu também sei notar a diferença entre cor de vinho e cor de vinho, e a cor de vinho da amostra 2 perdia ligeiramente para a cor de vinho das outras.

TESTE OLFATIVO – O famigerado momento de meter o nariz. Primeiro com a taça em repouso e depois balançando, pro vinho respirar e se abrir em todo o seu esplendor.

Minha avaliação – Taça 1: álcool. 2: também. 3: idem ibidem. Céus, cadê meu olfato apurado numa hora dessas? Cadê meu curso de degustação de café? Decepcionada comigo mesma, insisti nas narigadas até concluir o seguinte: o 1 cheirava a vinho gostoso e docinho, o 2 era meio metálico e o 3 parecia borracha queimada. (Fiquei especialmente orgulhosa  do “borracha queimada”, que achei de uma precisão absoluta e além de tudo é um termo que super me pareceu desse universo dos cheiradores profissionais.)

TESTE GUSTATIVO – Nós viemos aqui pra quê, afinal? Então me joguei nas taças, sempre com muita elegância e atenta às sutis nuances que elas revelavam a cada gole.

Taça 1: Nhé. Um gosto inesperado, bem diferente do cheiro. Muito seco e com um aftertaste (hã, hã?) amargo e persistente. Não gostei.

Taça 2: Nhé. Gosto de lata, daquelas latas de coca-cola antigas que às vezes vinham meio enferrujadas, sabe? Não gostei.

Taça 3: Nhé. Pertuchento, como diria meu pai. Desceu amarrando a boca. Não gostei.

Não anotei nada disso na ficha, só pensei. O resto da mesa parecia satisfeito. Concluindo que mandei mal, achei por bem continuar provando, e provando, e provando, até conseguir formar alguma opinião que prestasse.

TESTE GUSTATIVO, Round 2

Taça 1: O começo é gostoso, frutadinho. O amarguinho do final é que incomoda um pouco.
Taça 2: Lata.
Taça 3: Opa, agora senti a borracha. Mas não é ruim não. Tem corpo e enche a boca.

TESTE GUSTATIVO, Round 5

Taça 1: Diliça!, mas o amarguinho final incomoda um pouco. Só um pouco.
Taça 2: Lata? Não, isso é gosto de injeção. Sei lá… é bom, até.
Taça 3: Nham-nham! Muito tanino, né? Ah, tanino é bom? Então beleza!

TESTE GUSTATIVO, Round 8

Taça 1: noussaaaaa… tem o gosto do cheiro da Alice, docinho que nem ela, que estranho!
Çata 2: moço, acabô esse aqui, completa pra mim?
Caca 3: como é que é que você anotou aí no 3, amor? “Urina”, “sauna” e “aspargo”?? Hahahaha!! Põe aí também: “pneu de caminhão” e “elástico de estilingue”! HAHAHAHAHA!!! Ops! Desculpa, meu senhor… a camisa era nova? Vinho mancha, é? Moooça, enche aqui, por favor, pra mim e pra esse senhor, que a gente tá precisando!

Claro que o round 8 é fictício e mostra o que aconteceria caso houvesse nas taças vinho suficiente para 8 rodadas. Felizmente parei no round 5 com a seguinte conclusão: o 1 é bom, o 2 é ruim e o 3 é marromenos.

Somadas todas as avaliações, o vinho 1 foi o grande vencedor da noite e acompanhou o jantar delicioso que veio a seguir (ah tá, tudo isso foi só um preâmbulo, agora sim a gente vai beber!).

Então nós comemos e bebemos e voltamos pra casa felizes, cantando e trançando as pernas. E eu ainda tive que disfarçar minha embriaguez da minha mãe na hora de buscar Alice, coisa que não fazia desde os meus 23 anos e que evidentemente não funcionou, haja visto que ela acaba de me telefonar pra perguntar se eu “tô melhor”.

Fim.

 

Mari é  editora do MMqD, escreve o Pequeno Guia Prático para Mães sem Prática e sempre se atrapalha horrores com as postagens pós-feriado… pela compreensão, obrigada! 😉