A força da maternidade.

A força da maternidade.

Por: Natália Piassentini

 “A Força da Maternidade é maior que as leis da natureza.”
Barbara Kingsolver

Já dizia minha mãe: só se entende o sentido da maternidade quando se esta mergulhada nela. Talvez mais que a evidência nominal dessa comparação, possa averbar-se umas tantas outras compreensões, acaso tão ou mais importantes que aquela que jorra uma carrada imensa de luz no claro-escuro da relação entre mãe e filho.
Sempre imaginei que a lógica admirável de gerar uma vida estaria pujantemente a afirmar a realidade da coexistência humana, mas de fato estava certa,  lógico que só percebi quando concebi a vida em meu ventre.

A primeira gravidez me gerou abruptamente mulher – de menina a mulher. Furtivamente. Sim! Havia uma mulher embaixo daquela panóplia de menina insegura. A segunda gravidez me gerou mãe. Expletivamente. Primeira e segunda nenhuma menos ou mais bonita que a outra, apenas moldadas pelas causas e circunstâncias de seu átimo.

Eu já tivera mais do que uma quota justa de experiências maternas com minhas irmãs mais novas e com a minha primeira filha, mas ainda assim, na segunda vez foi diferente. Preparei-me para chegada deste novo membro em nossa família. Preparação; o que se faz necessário, no entanto, para bem harmonizar-se com o que a natureza realiza naturalmente – um milagre.

“Dos milagres – milagre é acreditar nisso tudo”. Parafraseando Mário Quintana; o milagre da vida desabrochando aos meus olhos. Tudo mudara no instante em que o “positivo” deixou de ser apenas uma palavra desprovida de elegância e honrarias. Bom, pelo menos agora ela fazia algum sentido – para quem tem um senso de humor meio distorcido. Duas ocasiões iguais em tempos diferentes e o mesmo sentimento. No intervalo de uma batida do coração aquela notícia fez todo sentido. Meus olhos se abriram.

Adverte-se, portanto, que nada é assim tão fácil tão simples, mas quem disse que seria?

Graciosamente, enfim, consegui. Orgulhosamente cumpri o meu papel, mais que um ávido desejo trovejando em minha idealização, uma missão a ser cumprida. Despi-me de preconceitos, conceitos, silvos alheios e interpelei a fêmea dentro de mim a sua função. E assim se fez. Desta vez posso eu repisar estalhidamente aos quatro ventos o sentimento de dever cumprido. Quem tem ouvidos ouça: envolvi em meus braços, acalantei, cuidei, ninei, chorei, participei, amamentei, lambi minha cria, meu rebento e me transformei em mãe. Ninguém teve que me dizer o que fazer como na primeira gravidez, ninguém além do marido ao meu lado, ao nosso lado. E tudo fluiu naturalmente. Como um rio que corre pro seu mar eu me deixei levar e fui conduzida através dos meus genuínos instintos.

Uma poesia de atordoante beleza, talvez das mais sublimes de toda literatura grega clássica, de todo bem que existe, todo encantamento que se possa imaginar, não há nada se compare a extraordinária e singela metamorfose de alguém à mãe de alguém: a transformação da crisálida em borboleta.

Ao dar-me conta, porém, da magnitude dessa embevecida obra de minha natureza, meu pecadilho inicial converteu-se em súbito brio, somente superada pela íntima certeza do poder que me cabia; como uma deusa poderosa e sábia como a natureza. Eu me senti assim, forte e poderosa. Orgulhosamente mãe por meus próprios medos e virtudes. Meus instintos.

Disse alguém (e disse muito bem) que “A maternidade é o magno sacrifício da mulher, o seu desdobramento incondicional para a multiplicação da espécie, a santificação do lar num sofrimento continuo e imensurável.” 

A partir do conhecimento, quase artesanal, digamos assim, a maternidade é uma total devoção à doação de si mesma a outrem que por nove meses desconhecido habitou nosso interior e comoventemente amamos este de tal maneira que nossa própria vida se torna tudo e nada, nossa vida é tudo o que temos a oferecer inafiançavelmente a este ser amado sem pedir, sem esperar absolutamente nada em troca.
O complemento da minha missão a terra, ser mãe.

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Natália Piassentini – Mãe da Giulia e da Maria Clara, blogueira, e, além de tudo, uma mulher que vive, sonha e faz planos, como todas nós. Autora do blog: Minha Maria, colunista no portal Grávidas em Campinas e coordenadora do grupo Vínculo Materno.