A arte de saber baixar as expectativas

A arte de saber baixar as expectativas

Por Lu Azevedo

Num dia frio como tantos outros, ela se levantou (após outra noite de insônia), preparou o café da manhã (sem cafeína) e se sentou com seu filho de 3 anos. Falaram sobre o Natal, a visita do Papai Noel, a chegada da vovó dali uma semana e sobre como caminhões de bombeiro são legais. Vez ou outra, ela brincava discretamente com os chutinhos que vinham de dentro de sua barriga.

Então, pensou no marido que viajava (e que finalmente chegaria naquele dia), na loucura que seria o próximo ano com duas crianças, nos seus planos futuros e por fim, porque diabos chovia tanto lá fora. Tomou um pouco de chá e não conseguiu evitar uma careta – outra vez tinha esquecido o saquinho lá dentro e o gosto ficou amargo demais. O filho riu, ela pegou o açúcar.

De repente, como num impulso, ela se levantou, pegou lápis e papel e resolveu começar a enumerar seus projetos pro próximo ano.

*

– Pintar o cabelo

– Comer menos açúcar

– Usar o ipad novo pra escrever mais no blog

– Escrever e ilustrar a história infantil que tem na sua cabeça há anos

– Terminar os dois livros que ela já está ilustrando

– Comprar uma bicicleta (e usá-la)

– Fazer yoga

– Desfraldar o primogênito

– Tirá-lo da cama do casal (sim, ele havia saído, mas voltou)

*

Afixou a lista na porta da geladeira com um ímã do Buzz Lightyear, olhou pro relógio e lembrou que já era quase hora de levar o filho pra natação. Enquanto subia pra trocar de roupa, lembrou do berço que estava por montar e da mala que o marido trouxe do Brasil lotada de roupinhas fofas de bebê, e sentiu um rompante pra começar a arrumar tudo naquele minuto. Pausa para comentário. Não, não era o nesting* começando, isso é coisa dela mesmo. Termina pausa.

Mas pensando que tinha muito trabalho pra fazer naquele dia, resolveu não desvirtuar e sim, respirar fundo e lutar fortemente contra todas suas células arrumadeiras. Cada coisa no seu tempo: no outro dia cedo (sábado) seu marido poderia montar o berço, ela lavaria todas as roupinhas e sem pressa poderia organizar tudo em seu lugar (ou seja, na única gaveta disponível à Lily até o momento – a do berço). Ela então ficou feliz pela dádiva de conseguir pensar racionalmente e com parcimônia, mesmo em momentos de rompante (qualquer grávida sabe que isso não é fácil) e assim não acumular mais uma culpa materna por não levar o filho na natação.

* * *

No dia seguinte ela é a primeira a se levantar. Entusiasmada, vai tomar café. Volta pro quarto, marido dormindo. Então coloca as roupinhas pra lavar. Volta, marido dormindo. Decide que é melhor tomar um banho. Sai, marido dormindo. Tropeça na cama, ele acorda.

– Oh, que bom que você acordou, amor! Bom dia!!!

Ele volta a dormir.

Uma hora depois, lutando contra a dádiva da tranquilidade que ameaçava ir pro espaço, ela o observa se levantando lentamente sem acreditar como pode uma criatura ter tão pouca pressa pra montar um berço. Algo tão legal de se fazer! Ele então escova os dentes devagar, toma banho sem pressa alguma, toma café com movimentos quase estacionários, pra finalmente… se sentar pra checar os emails.

– E o berço? – solta ela abruptamente.

– Que que tem? Você quer mesmo montar hoje? Mas falta tanto tempo ainda… tem mais de um mês pra gente fazer isso…

– Eu sei, mas é que eu já queria começar a organizar as roupinhas dela… tá tudo dentro da mala ainda… Sem falar que vai ser bom pro Nic, pois vai ficar tudo mais real com o berço ali… não acha?

– É…

E montou o berço.

* * *

Ela finalmente conseguiu passar a tarde arrumando tudo com carinho, namorando cada detalhe das roupinhas e tentando se decidir qual lençol colocar no berço – o de joaninhas ou o de ursinhos – quando de repente ela escuta:

– Mamãe, quero deitar aí.

– O que, Nic? Nesse berço? Mas é da sua irmãzinha, meu bem… lembra que você dorme com a mamãe e o pap… – E só então a ficha dela caiu. – Tá bom! Pode deitar aqui sim!

E desde então Nic não dorme mais com eles.

Não foi bem como ela esperava, mas naquele dia ela riscou feliz o primeiro ítem da sua lista.

E depois saiu pra comprar um moisés pra bebê que vai nascer.

 

Lu Azevedo – Mineira de Belo Horizonte, que adora percorrer o mundo. Já morou na Venezuela com o marido, depois Australia, e hoje moram nos arredores de Vancouver – Canadá. Ex-geóloga, atualmente mãe de Nic e Lily em tempo integral e ilustradora nas horas vagas. Autora dos blogs: Nicolilando por aí e la le li lo lu ilustration – onde posta seus lindos desenhos, já conhecidos pela blogosfera afora.