A aposentadoria e a morte

A aposentadoria e a morte

Por: Carol Garcia

A dentista do Isaac é uma pessoa incrível.
Brava e bem humorada ao mesmo tempo, conquistou meu filhote ainda bem novinho.
Cuidou, brincou e fez dele uma criança de dentes saudáveis e lindos.
Mas acontece que a Querida Dentista não é lá tão mocinha.
E esta semana nos comunicou que está se aposentando.
Eu tentei antecipar o assunto, explicar um pouco sobre o fator previdenciário (mentira. da braba).
Ele entendeu o quanto quis e lá fomos nós.
Ela realizaou a última consulta e com lágrimas nos olhos disse dos seus planos de descanso, paz e menos bocas abertas.
Chorei. De uma maneira um tanto disfarçada, confesso, ao ver Isaac abraçar a dentista e se segurar, firme, na despedida.
No caminho do carro ele soltou um suspiro, derrubou os ombros e começou a chorar.
Sentido, tadinho.
Questionava o tempo, a mãe, a dentista e essa loucura de vida.
Deixei que ele colocasse pra fora.
Assisti mais um aprendizado.
E logo ele começou com suas perguntas.

– Mamãe, porque a Tia Dentista não quer mais ser a minha dentista?

– Ela quer filho, mas ela vai parar de trabalhar. Não será mais a dentista de ninguém.

– Nunca mais?

– Acho que sim, filho.

– Porquê?

– Isso se chama aposentadoria Isaac.

– Porquê?

– Aposentadoria é quando as pessoas já trabalharam muito e agora merecem um descanso.

– Ela fica cansada de ser minha dentista?

– A Tia Dentista ficou cansada pois já trabalhou muuuuuitos anos, sendo dentista de muuuuuuitas crianças. E sua também.

Ele ouviu tudo atentamente até a tolinha aqui cair numa armadilha sem volta:

– E ela está velhinha, precisa ter uma vida mais tranquila.

Olhos arregalados mode on.

– Então, mamãe (bico de choro e medo), a Tia Dentista Querida vai morrer?

– Não filho. Não vai morrer.

– Mas você disse que todo mundo morre. E morre quando fica velhinho.

Respira, respira, respira.

– Sim filho. É bem isso. Mas a Dentista não vai morrer agora. Ela só parou de trabalhar.

Isaac entrou no carro em silêncio.
E quieto ficou pensando na vida. Ou no fim dela.
Por um bom tempo ficou triste.
Eu fiquei na minha. Dando espaço praquilo tudo.
De noite ele tocou no assunto novamente:

– Quando você ficar velhinha e morrer eu vou ficar sem mamãe…

E ao ouvir a própria voz percebeu alí outra coisa:

– E quando EU ficar velhinho, um dia EU não vou existir mais.

Eu, tão pequena diante dessa verdade toda, só contribuí com o meu otimismo característico:

– É filho, mas isso vai demorar muito. Muito, muito, muito mesmo.

Amém, né?

 

Carol Garcia – Mulher, mãe, jornalista. Adora um bom papo, uma boa novidade e um bom destino. Conhecer novos lugares, novos costumes e viver. Muito! Autora do blog Viajando na Maternidade, onde compartilha sua experiência e muitas dicas de toda essa viagem que é ser mãe.