Por: Fernanda Barbosa

 

Eu não dirijo. Quer dizer, eu sei dirigir, mas jamais peguei no meu carro. Jamais. Temos um carro e só meu marido dirige, eu não.

Há algum tempo (leia-se: desde que virei mãe) sinto uma pressão social para que as mulheres “modernas” se comportem de determinada forma. Não pode abandonar emprego pra cuidar de filho, não pode optar por ser dona de casa se tem diploma de nível superior, não pode ter um filho só que ele fica egoísta, não pode ter filho muito cedo, pra não atrapalhar a carreira, não pode ter filho tarde pra evitar ser mãe-vó.

Eu enumeraria milhares de “tem que” impostas pela sociedade na surdina, na encolha, silenciosamente. Nada de repressão ostensiva, não. Ninguém, a não ser alguém muito mal educado, vai lhe dizer essas coisas na maior. Não, minhas caras, elas farão caras e bocas quando você disser que é dona de casa ou que trabalha em casa, tanto faz. Vão fazer piadinhas quanto ao seu diploma pendurado na parede e empoeirado. Coisas assim bem sutis.

E se você mudar de círculo social ou de ambiente, não vai ser diferente. Talvez em outro ambiente a sociedade lhe diga que ficar em casa depois de procriar é uma obrigação de toda mulher. Que comer assim ou assado, que fazer isso ou aquilo em prol da família é um dever. Enfim, muda o cenário, muda o roteiro, mas o final é o mesmo: você com cara de boba quando chega em casa, pensando na tremenda culpa por ser (ou não ser) algo que dizem que você deveria (ou não) ser.

Bem, diante desse panóptico, nossa opção é recuar ou firmar pé. Eu firmo pé para algumas coisas e uma delas é a direção.

Eu não dirijo. E nunca vou dirigir com meu filho sozinho atrás no carro. Nunca mesmo. Pelo menos não nessa cidade. Aqui não me sinto segura, mas foram muitas as vezes em que me vi impelida a dirigir, como se uma mulher “moderna”, independente e inteligente tivesse de mostrar isso ao mundo pondo aos mãos num volante. Ora, que grande besteira! Nossas mães e avós não puseram sutiãs em fogueiras para deixarmos que a sociedade diga a nós, mulheres inteligentes, o que fazer.

Pegaram meia dúzia de preceitos feministas, deram uma boa torcida, misturaram com conhecimentos parcos e superficiais de psicologia, historiografia e sociologia e o que restou foi um monstro amórfico pseudofeminista que teima em “dizer”, em “impor” comportamentos às mulheres de hoje em dia.

Se tem alguma coisa que não suporto é ver que dos movimentos e marcos fundamentais da história ficam só os clichês, vazios da mensagem original.

As nossas avós e mães queimaram sutiãs para que hoje eu possa ter o direito e a liberdade de escolher o que quero fazer, e não para obrigatoriamente seguir determinados passos que antes eram considerados exclusivamente masculinos. Ou, ao contrário, para me ver obrigada a resgatar uma pretensa feminilidade que teríamos deixado para trás com a entrada das mulheres no mercado de trabalho.

Eu tenho meus motivos para não dirigir meu carro com meu filho atrás sozinho. São meus motivos, de ninguém mais, e por isso não questiono mães que dirigem com seus filhos sozinhos atrás. Isso, sim, é o que penso ser o significado de viver em sociedade – deixar que cada um cumpra seu caminho da forma que escolheu, desde que isso não implique o caos ou o sofrer do todo social.

Eu não preciso dizer que, quando pequena, nosso carro, uma Brasília, foi roubada de dentro de nossa garagem e que isso me deixou extremamente insegura com relação à casa em que eu morava e sobre a segurança de dormir ali.

Eu não preciso dizer que, alguns anos depois, ainda menina, vi minha avó e meu padrinho arrumados para o casamento dele serem retirados violentamente do carro, também uma Brasília, e ter a dúvida se avisava ou não ao meu pai que estava dentro de casa. Eu tive medo, por alguns segundos, de que o fato de eu ter avisado meu pai de que minha avó corria perigo, também o tivesse colocado em perigo. Por sorte, nada ocorreu.

Depois, já adolescente, minha mãe, meu pai, meu irmão, minha melhor amiga e meu tio que eu amo muito estavam no carro de meu pai quando foram violentamente interceptados por bandidos armados em um sinal de trânsito. Eles tiveram de sair às pressas do carro para “o bonde” passar, roubando mais outros carros que também estavam parados ali. Todas as pessoas que me importavam na vida naquele momento estavam naquele carro. TODAS, sem exceção.

Depois, já no fim da faculdade, em casa, minha mãe recebe a ligação de meu pai. Ele tinha sido roubado, entraram no carro dele, mandaram ele ir para trás e ficaram circulando pela cidade. Estavam armados e meu pai foi deixado em um canto qualquer da cidade. Não sofreu nada.

Então eu preciso mesmo dizer à sociedade, cada vez que digo que não dirijo, quais são meus motivos para ser tão “antiquada”? Preciso? Eu gostaria de ter minhas escolhas respeitadas sempre, ainda que elas não tenham motivos tão contundentes quanto esses.

Deixa, sociedade. Deixa que eu me dirijo.
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Fernanda Barbosa é jornalista e mãe de um garotinho de 3 anos

Imagem: daqui