Doce deleite

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Alergia à proteína do leite: como lidar com as limitações alimentares de uma criança de 3 anos

Por: Mariana Claudino

Sou craque em pedir um minuto de prosa com chefs de cozinha e visitar cozinhas de restaurantes. O motivo é a alergia alimentar do meu filho, Mateus, de 3 anos e meio. Para ter o mínimo de vida gastronômica social, preciso fazer quase um inquérito: “tem alguma coisa de queijo nesta comida?” ou “a panela está limpa ou há um pouquinho que seja de manteiga, moço?”, “o senhor realmente não usou nada de leite aqui neste prato?”. Parece maluquice ou frescura e já recebi vários olhares espantados ao fazer perguntas como estas, como se eu fosse a pessoa mais desmiolada do mundo. Mas não é bem assim: o problema, muito desgastante, começou logo após o desmame. Por ter feito uma redução de mama anos antes, eu não pude amamentar meu pequeno bebê mais do que 3 meses. Pois bem: na primeira mamadeira, o mocinho ficou cheio de manchas vermelhas pelo corpo in-tei-ro. Meses depois, durante uma tentativa – inocência, minha, admito – de testar se a alergia havia passado, Mateus ficou completamente pintado, da cabeça aos pés, com a pele quente e olhos inchados, prestes a ter um fechamento de glote. Para mim, que antes de ser mãe achava que esse papo de alergia era besteira e exagero, foi o maior susto e a maior culpa dessa minha vida pós-filho. Partimos então para medidas radicais e seguimos à risca a dieta passada pelo alergista. Na mamadeira, apenas leite de soja – e nada mais de testes ou tentativas em relação à aceitação de alimentos. Meses depois, veio a confirmação em um exame de sangue, junto a um fato novo: Mateus era alérgico não só às três proteínas do leite, mas também ao ovo.

Meu marido e eu fomos levando a situação, afastando estes alimentos da dieta do Teteu, como carinhosamente ele é chamado. Do ovo, já teve alta. O problema é que não tínhamos a noção do tamanho da alergia: não basta só ele não ingerir as proteínas do leite. Quando estamos juntos, precisamos também ter cuidado com o que comemos – e com o que os outros comem. Já tivemos a experiência desagradável de vê-lo ficar com a boca cheia de bolinhas logo depois de meu marido ter comido uma esfiha de queijo e tascado um beijão nele. Com isso, tivemos de aprendemos a fazer concessões: ir a uma pizzaria, por exemplo, é um programa do casal, não da família. Manteiga não entra lá em casa. Queijo e leite, só comemos longe dele. Iogurte que vale um bifinho, biscoito recheado ou pão de queijo, nem pensar. Nas festinhas, sempre levamos um kit com o que ele pode comer. Na escola, deixamos um lanche substituto quando há pão com requeijão, por exemplo, no cardápio – e vez ou outra ele recebe um beijo ou abraço de um amigo e o anti-alérgico (SEMPRE na bolsa!) precisa entrar em ação…O último susto foi no carnaval deste ano: perguntei ao pipoqueiro se a pipoca era feita na manteiga ou no óleo. “No óleo, moça”. Mas ele esqueceu  de me dizer – e eu esqueci de perguntar – que tinha queijo… Mais um episódio sofrido de olho inchado por causa da alergia, dessa vez com tosse, um pedido que me cortou o coração de “mamãe, me dá meu remédio da ‘aligia’?”, sangue frio e quase uma ida à emergência…

Sustos e limitações à parte, por outro lado a alimentação do Mateus é um barato: fora o fato de questionar, vez ou outra, o porquê da alergia, ele come bem. É o primeiro a lembrar que precisamos comprar brócolis e beterraba e me cobra quando não tem tomate cereja em casa. Sempre fazemos pratos saudáveis, saborosos e criativos.  Eu, que era a mestra do microondas e fã de pratos congelados industrializados até ele nascer, aprendi a cozinhar. E a inovar: já fiz brigadeiro de inhame, massa de panqueca sem lactose, pizza só com peito de peru, tomate, milho, azeitona e orégano (uma delícia!), biscoito de aveia, bolo de banana e de chocolate em lactose – e até descobri que estrogonofe com requeijão de soja pode ser um sucesso.

Se a alergia vai passar? Provavelmente sim. Nos próximos meses? Com certeza não. É difícil lidar com isso? Muito, muito. Mas, enquanto isso, vamos fazendo alguns malabarismos, tratamentos homeopáticos e aprendendo principalmente com ele, que volta e meia me diz: “Mamãe, eu posso comer isso ou tem leite de vaca?”, inventa que está lendo os rótulos nos supermercados e fala “ó, esse aqui não-tem-alIgía-do-Teteu”, chama a atenção dos amigos dizendo que não pode ganhar beijo porque eles estão comendo “biscoito que tem vaca” e é o primeiro a me lembrar que preciso  interrogar os chefs de cozinha dos restaurantes. “Vai lá falar com o xéfi, mãe”. Sem neurose ou paranoia, mas com cuidado e amor. Isso, sempre.

 

Mariana Claudino é jornalista, assessora de imprensa e escritora: é autora do best-seller “Almanaque anos 80″, ao lado do também jornalista Luiz André Alzer, e trabalhou por oito anos como repórter do Jornal Extra, no Rio.



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