Por: Balzaca Materna*

*Esse blog faz parte do Especial Top 20 do MMqD, uma seleção dos blogues mais votados pelos nossos leitores, através do formulário VIP na pracinha.

O espanto já é comum sempre que numa reunião de casais amigos, nos perguntam sobre a quantas anda nossos programas de casal.  Crianças correndo de um canto a outro, trilha sonora infantil ao fundo e copos que dissimulam o conteúdo alcoólico acabam nos desencorajando a dar longas respostas, respondemos sempre com um sorriso evasivo. Quem entenderia, afinal?

Na verdade, não temos programas de casal embora estejamos casados há onze anos. Prova de que não existem fórmulas que garantam o sucesso. Muita gente diante disso se escandaliza e nos pergunta como sobreviver a rotina. Boa pergunta essa.
Vejo casais fazendo o inimaginável para fugir da rotina, mas o que me parece, numa análise de psicologia de  botequim, que querem mesmo é fugir um do outro. Encaro a rotina como um evento natural da vida, sendo assim, não há porque fugir dela.
Ainda tem aquelas que me chamam num cantinho e me perguntam então quais os meus truques para manter o tesão na cama, antes de se certificarem de que ele ainda existe.

Daí lembro dos meus pijamas de ursinho e minhas camisolas de poá e constato que eu simplesmente não faço nada. Ondas saudosistas me invadem e me levam pra um tempo em que éramos um do outro a qualquer hora do dia. Quando não precisávamos abafar gemidos, nem nos vestir pra buscar água na cozinha.

Nos bastávamos. E tínhamos tempo suficiente para estarmos entregues. Com a gente nunca funcionou a artificialidade de climas românticos, de acessórios eróticos, nem o uso de lingeries provocantes. Só porque não acredito no prazer mecânico que essas coisas de borracha e que vibram proporcionam. Sozinha pode ser, mas acompanhada...não, obrigada.

Não tinha mistério, era só chegar perto um do outro pro clima acontecer. A excitação podia ser mensurada pela velocidade da respiração, apesar de tentarmos dissimular na frente dos outros. E tudo acontecia com muita entrega, sem pudores, sem mecanismos, sem velas, sem roupa.
Não acredito na racionalização do sexo. Pra mim tem que ser puro instinto.

Esse espanto dos amigos me assusta: "Então, como vcs fazem?" - é a pergunta que ouço e devolvo, porque me causa também uma enorme curiosidade. O que está por trás dessas peguntas de alcova, para minha surpresa, é uma cobrança nada velada de que nós mulheres temos que nos mexer (e até rebolar) para segurar o casamento, para não deixar o tesão morrer, para que - vamos falar a verdade - não ganhemos um par de chifres.

Não tenho medo de ficar sozinha, vou logo dizendo.

Sem falar que há toda uma indústria para socorrer as mulheres que se deixam cair em desespero. Quem nunca viu por aí "10 dicas preciosas de como enlouquecer seu homem na cama" - "10 itens indispensáveis na hora do sexo" - "Tudo que vc precisa saber no livro..." - lingeries, maquiagens, cosméticos, intervenções cirúrgicas....como se isso fosse garantia de fidelidade e a felicidade, uma mercadoria ao alcance das mãos. Ou do bolso.
Saber qual tipo de relação vc estabeleceu desde o começo com seu namorado/parceiro/marido, talvez seja a chave para entender essa cobrança. Ele é bonzinho com vc, te trata bem e por isso merece tal e tal inovação na cama? Ele não fez o que vc queria, por isso vai ficar tantos e tantos dias no zero? Bom, nunca me ocorreu barganhar meu próprio corpo. Se ele está bonzinho pra mim, se me deu presente é porque mereço. E fim.

Mas voltando, o sexo de um casal com filhos é cheio de particularidades.

Vou confessar que nos primeiros meses após o nascimento dos filhos, eu não tinha a menor vontade de nada. A não ser dormir. Estava completamente envolvida com aquele filho, com todos aqueles protocolos noturnos que demandam afeto e exigem um esforço quase sobre-humano. E o relacionamento passou por um amadurecimento.
Daí os mais íntimos nos perguntavam: então, como vão manter o casamento? e ainda ouvia "Quando eu tiver filhos, vai ser diferente."
Sim, porque não bastava dar conta do filho, tinha que dar conta do marido também. Sinceramente? Não soubemos responder, estávamos ocupados demais sendo pais. E nem precisamos de combinação prévia.  Foi acontecendo e fomos respeitando a nova condição de nossas vidas. Nos apaixonamos pelo pai e mãe que passamos a ser. Descobrimos novas formas de admiração que iam além do sexo.
Estreamos uma nova modalidade pós-filhos: sexo com hora marcada. Esse talvez seja o maior corta-gozo, pois deixa de ser instintivo. Afinal, tudo deve estar condicionado ao sono dos pequenos. Já aconteceu de estarmos no maior climão e a criança naquele dia, justo naquele dia, não querer dormir.
Sem falar na frequência. Antes podia ser algumas vezes ao dia, até que restássemos exaustos. Hoje o processo se inverteu, já começamos extenuados. Mas a frequência realmente importa?

Como tudo passa, deu-se início uma fase de resgate dos namorados afoitos que ainda estavam ali, tímidos diante de tantos protocolos a serem cumpridos. Afora o cansaço, outro problema: a aceitação com o próprio corpo. Por mais que voltemos ao mesmo peso, nosso corpo nunca mais vai ser o mesmo. Simplesmente muda. Como tudo na vida, aliás. Mas isso deve ser mesmo impedimento?
Não, né? Não, né? Não, né? - tem que repetir até acreditar.

Um fator que também deve ser considerado é o respeito. Respeito pelo outro, pela nova condição, pela passagem do tempo. Sei que ao me deitar (ou não), ele me olha e consegue me enxergar como uma mulher. Olhos de homem e não de censor, pra mensurar a rigidez do meu corpo. O único que precisa ter coisa rígida é ele, oras.

Mesmo com tudo dando certo, sinto muita falta de ter um tempo meu e dele fora de casa, não posso mentir nesta conversa franca e inédita. Mas morar longe da família tem lá suas desvantagens.
Acho fofo quando ele diz que começaremos a namorar de novo aos 40, quando os filhos estiverem mais crescidos.  (cada qual com seu remedinho de pressão na bolsa. Oh god!)

Sinto muita falta, mas enquanto o tempo de namoro não volta de forma plena, vamos nos virando e nos amando. Sem cobranças, sem artificialidades, sem velas e sem roupa.

O que me deixa tranquila?

É saber que por mais que esteja sem pique nas investidas iniciais, quando acontece.....na hora em que acontece, sinto tudo aquilo que senti na primeira vez que me entreguei a ele. Mesmo sem seguir dicas de revistas, sem artifícios que me tornariam arremedo de mim mesma, sem excitação mecânica.
É saber que apesar do tempo, das mudanças, dos filhos, na hora H tudo permanece sempre igual: o nosso sentimento, a nossa atração e principalmente, nós mesmos.

O assunto é comum a maioria de nós, mulheres e homens com filhos, mas muito pouco se fala a respeito. Continua envolto em tabu, afinal pra que expor intimidades? Mas quero saber, quais foram as maiores dificuldades no pós-filhos? Já superaram ou ainda estão passando por isso? Vou até passar um café, pra gente conversar melhor.

 

Dani - uma mulher com seus dias de lua e suas noites de sol. Mãe de uma dupla linda e autora do blog Balzaca Materna, onde escreve sobre de tudo um pouco do seu lado mulher e mãe.



Se você gostou desse post, não deixe de ler:

Amamentação e cólicas no bebê by Flavia on December 17th, 2013

As temidas cólicas do lactente by Roberta on September 24th, 2012