Qual filho você ama mais?

Qual filho você ama mais?

Por: Dani

 

Há alguns dias, havia elogiado a delicadeza das suas mãos e de como ainda eram pequenininhas e gordinhas. Daquele tipo que vc não consegue ver nenhum osso. Havia janelinhas abertas em sua boca. Suas bochechas ainda eram fofas e vermelhas. Corria pra nossa cama assim que amanhecia e o cabelo dela tinha um cheirinho doce. Ela ainda era um bebê, só que grande.

Essas observações vinham sendo feitas até a chegada de um serzinho muito menor. Ainda tímido nos seus gestos e no seu choro. De repente, aquela mãozinha fofa se pareceu gigantesca. Assim como todo o seu corpinho. Mudou-se a perspectiva. Tudo parecia grande demais, ameaçador demais. Era preciso cuidado. O bebê era muito mais frágil – eu falava.

Durante as manhãs, ela já não corria pra nossa cama, pois sabia que ela estava ocupada e todos os olhares eram para o meu seio e para a boca daquele bebê, que mamava alucinadamente. Momentos gostosos ainda aconteciam. Passávamos a tarde deitados. Todos juntos. Ela, o bebê e eu. Nos reconhecendo, criando intimidade, brincando ou cantando até que…por alguma motivo de força maior, eu era obrigada a interromper tudo. Sempre eu. Sempre motivos mais urgentes.

Cerca de um ano e meio se passou para que ouvisse algo que me machucou muito e me deixou completamente perturbada. Senti o amargo da injustiça. Duas pessoas do meu convívio, chegaram para o meu marido numa preocupação que acredito genuína e disseram que eu parecia gostar mais do bebê que da mais velha. Um detalhe: elas, mães de um filho só. Estavam falando do que não conheciam.

Como é do meu feitio, guardei isso e fiquei remoendo durante muito tempo até sentir que poderia falar do assunto sem bancar a ofendida.

Achava intimamente que estava conseguindo conciliar, enquanto tentava equilibrar todos os pratos. Achava que teria que me dedicar de corpo e alma aquele recém-nascido pra que não faltasse a ele tudo que a ela tinha dado. Seguindo essa lógica, fui levando essa maternagem plural. Sempre buscando conciliar, sempre buscando…

Cinco anos de diferença e duas fases bem diferentes no desenvolvimento de cada um dos filhos.

Quem demandava mais atenção? A quem precisava socorrer a qualquer tempo e a qualquer instante? A quem precisava segurar nos braços, porque se negava a ficar deitado fosse onde fosse? Quem precisava de vigilância constante quando começou a engatinhar precocemente aos quatro meses? Quem me fazia passar noites e noites acordadas?

A gigantona e o bebê. Como escolher qual desses amar mais?

A resposta é óbvia. Ele demandava mais atenção, mas não há que se falar em amor. Mensurar isso, dessa forma superficial, é leviano. Amor a gente sente. Somente.

A chegada de mais um filho, muda tudo. Toda rotina estabelecida e a forma como nos relacionávamos entre si. Mas quem disse que essa mudança é ruim e que implica prejuízos? Seria mais correto falar em ajustes –  estes sim, absolutamente necessários.

Amar era ficar com o coração partido quando eu não podia fazer companhia a ela durante as refeições; era chorar quando eu a via se isolar, só pra conseguir brincar, sem aquelas mãozinhas pra espatifar todos os seus brinquedinhos rigorosamente alinhados; era quando a via tomar banho sozinha e antes que eu pudesse me justificar, ouvir seu entendimento, que eu não precisava me preocupar…sozinha, por força das circunstâncias aprendeu a cortar o próprio pão, a servir o próprio leite…era doído, ao mesmo tempo me enchia de orgulho essas atitudes.

Amar era sentir aquela presença pequena, ainda que proporcionalmente gigantesca,  no meio da madrugada perguntando se podia ajudar, afagando a cabeça do irmão e desejando que eu dormisse pelo menos uma noite completa.

Não era amar menos, era fortalecer o amor que sempre esteve ali, se fazendo presente. E essa conversa procurei ter com ela, não com as pessoas que levantaram esse questionamento. Julguei mais produtivo. Choramos juntas e ela me disse da forma mais sincera que consegue ser: mãe, um dia te quis só pra mim. mas depois, já gostava tanto do meu irmão, que não queria vc longe dele. só quero que a gente fique junto: eu, vc, o papai e ele.

A chegada de um irmão, amadurece, pois se percebe que as atenções do mundo não giram para sempre ao redor do próprio umbigo. A chegada de um irmão fortalece o amor e o vínculo que já existiam ao mesmo tempo que ensina o acolhimento.

Disso uma lição: aos olhos dos outros, nunca seremos perfeitos. Pois cada um julga, baseado naquilo que tem dentro de si e das vivências que possui.

Tudo isso aconteceu, enquanto eu aprendia a ser mãe de dois, enquanto aprendíamos que sempre se pode amar mais e melhor.

 

Dani – uma mulher com seus dias de lua e suas noites de sol. Mãe de uma dupla linda e autora do blog Balzaca Materna, onde escreve sobre de tudo um pouco do seu lado mulher e mãe.