Por Heloísa Cunha

Filha viajando a serviço, neta aqui com a vovó.

Depois de um dia de brincadeiras, meio inadequadas para a vovó, fiquei me sentindo moída (será que esse termo ainda é usado?). E foi então que me lembrei de minha avó Olga, que quando estava muito cansada dizia que estava “descadeirada”. Nunca mais ouvi outra pessoa usar essa expressão “estar descadeirada”. Talvez alguma das suas descendentes ainda a usem, por força de herança. Mas é algo que saiu de moda.

Sim, palavras também têm moda. E, no caso, não estou falando somente da gíria, que varia no tempo e no espaço. Mas de palavras, que embora firmes no dicionário caíram em desuso.

Disco, retrato, reclame, donzela, vitrola, pirraça, mixórdia, pirralho ...

Espoleta, pindaíba, balzaquiana, lambisgoia ....

Expressões como “ de fio a pavio”, “amarrar o burro”, “ será o Benedito?” “sorriso amarelo” ...

Até as cores: grená, ciclamen ...

E muito mais.

Algumas dessas palavras e expressões, já estão definitivamente “aposentadas”, depois de terem sido amplamente utilizadas e compreendidas.

Quantos não colocaram discos na vitrola, que mais do que um equipamento era um móvel com lugar de honra, em muitas casas.

Retratos! Como eram importantes. Tirar um retrato era um acontecimento, e os retratos não eram tantos, como as fotos de hoje em dia. Por isso, tinham um valor especial.

Pirraça? Os pirralhos a faziam a todo momento.

As pirraças continuam. Mas não com esse nome.

Às vezes penso que os novos nomes não expressam tão bem determinados comportamentos. Mas é inevitável que surjam, em substituição aos termos em desuso.

E aquilo que não é muito usado cai no limbo, e acaba se “aposentando” definitivamente.

O mesmo com as expressões populares, tão interessantes e criativas.

Você já precisou dar o braço para torcer”?

E já ficou em situações em que “ a porca torce o rabo”?

Mas provavelmente, em alguma época da vida, já teve que se lembrar que “de grão em grão, a galinha enche o papo”, bem como de que devagar se vai ao longe”, pois “a pressa é inimiga da perfeição”.

E quem criou, ou está criando, filhos sabe que “ é de pequenino que se torce o pepino” porque, caso contrário, não vai adiantar “chorar sobre o leite derramado”.

Muitas vezes percebemos que “uma andorinha só não faz verão”, mas também vale lembrar queantes só que mal acompanhado”.

E amor com amor se paga”, mas “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher, mesmo porque o importante é “cada macaco no seu galho”.

Quando criança eu não gostava de ouvir nem que a vaca tussa, ou então ‘‘pode tirar o cavalinho da chuva”. Mas gostava de escutar que "água mole em pedra dura tanto bate até que fura” e também que “mais vale um pássaro na mão do que dois voando”.

Essa forma curiosa de falar, que praticamente desapareceu das conversas do dia-a-dia, era muito utilizada pelos antigos, e lembro bem dos “ditados” falados e repetidos pela minha vó Olga e por minha mãe. Era incrível como, nas mais diversas situações, elas sempre se lembravam de um ditado popular.

Eram frases curiosas, mas cheias de força. E muitas serviam para dar lições com bastante humor, como "saco vazio não para em pé". Pode ser que não incentivasse a criança a comer, mas certamente provocava risadas .

Quem lembra de tudo isso?

E será que a minha neta - e os filhos de vocês! - conhecerão essas palavras e expressões?

Heloísa Cunha tem 73 anos, é vó da Isadora e blo-guei-ra das mais competentes e antendas. Ela escreve no  Blog da vovó...mas não sóonde relata, entre outras coisas, o prazer da rotina com a netinha.