Por: Lily

Eu sempre achei que engravidaria na hora que eu quisesse, porque as coisas sempre aconteceram na hora certa pra mim. E, pra mim, a hora certa seria quando EU quisesse. Quando as tentativas finalmente começaram, todo mês era aquela expectativa. Perdi as contas de quantos testes de farmácia eu fiz. Teve um mês que a minha menstruação atrasou mais de 15 dias. Eu tinha certeza de que estava grávida e, apesar do teste de farmácia ter dado negativo fui até ao laboratório pra fazer o exame de sangue. O resultado negativo foi como um banho de água fria. Depois de mais alguns testes eu decidi parar, a angústia que eu sentia depois de cada negativo simplesmente não valia a pena. Era melhor esperar a menstruação atrasar meses e só quando eu tivesse a certeza de que estava grávida eu faria outro. Mas, a menstruação nunca mais atrasou.

Eu não conseguia mais ficar feliz quando alguém me contava que estava grávida. Eu só conseguia pensar, por que ela pode e eu não? Todo mundo dizia que era psicológico, que a expectativa estava prejudicando, que quando a gente menos esperasse aconteceria. Foi quando decidimos procurar ajuda médica, fazer os exames para ter certeza de que estava tudo bem com a gente e assim tirar o fator clínico da jogada. Depois de várias consultas e muitos exames descobrimos que nenhum dos 2 era capaz de gerar um bebê de forma natural. Eu tenho as 2 trompas obstruídas e a produção de esperma dele não é 100%. Lá fomos nós procurar por especialistas em reprodução.

O 1º médico era super renomado na área, famoso, então fomos à primeira consulta super confiantes. Ele nos pareceu muito inteligente, mas também muito frio. Um médico que trata de uma das fases mais sensíveis da vida de uma pessoa não pode ser frio. Ele leu o laudo da biópsia e, apesar do urologista ter nos dito que era possível engravidar e a especialista do laboratório onde foi feita a biópsia confirmar isto, ele nos garantiu que não era possível e para completar a consulta nos empurrou uma papelada sobre doadores de esperma. Doutor, eu não sei se o senhor entendeu, mas nós acabamos de passar por isso! Nós acabamos de questionar a nossa capacidade de gerar nossos próprios filhos, vamos precisar voltar a este assunto? Eu não tenho nada contra a opção de usar doadores, mas se existe a possibilidade de ter um filho com o nosso material genético é esta opção que eu quero explorar primeiro. Estes médicos parecem não ter noção da força que eles exercem sobre a vida das pessoas. Sentam atrás daquelas mesas, cheios de pompa e certificados de várias partes do mundo, mas apesar de serem tecnicamente muito bons, não estão preparados de forma alguma para tratar com pessoas.

Apesar de estarmos completamente desanimados, resolvemos levantar a cabeça e ir atrás de uma segunda opinião. Este segundo médico é o completo oposto do primeiro. Caloroso, brincalhão, faz a consulta parecer um bate papo. É disso que a pessoa precisa quando está passando por um momento como este. Ninguém chega até ali sem ter recebido péssimas notícias antes. Quando ele leu o laudo da biópsia a primeira coisa que ele disse foi “Se vocês tivessem me procurado para fazer esta biópsia, eu já teria congelado os espermatozóides.” Oi?! Como é?! Você já teria congelado o que?! “É, está escrito aqui ‘presença de poucos espermatozóides ativos’ eu só preciso de um, gente.” Pronto! Achamos o nosso médico!!!

Óbvio que depois que a euforia baixou a gente parou para pensar se ele não poderia estar nos encorajando somente para tirar nosso dinheiro. Mas, entre gastar dinheiro num banco de esperma e gastar dinheiro tentando fazer o nosso próprio esperma funcionar, a gente preferiu a segunda opção. Estávamos felizes de novo, e naquele momento só isso importava!

Quando fiquei menstruada, ligamos para ele e começamos o tratamento. Ultrassonografia, injeções de hormônios, mais ultras, mais hormônios, exames de sangue... Eu nunca fiz tantas ultras e exames de sangue na minha vida. Marido retira o material dele que é congelado. Depois de estimular a produção dos meus óvulos eles fazem a punção do meu material também. Até que chega o grande dia: a transferência dos embriões!! Com os hormônios, eu consegui produzir uns 15 folículos, mas no final do processo conseguimos 5 embriões. De acordo com o médico, pela minha idade (eu tinha 32 anos) o ideal era que fossem transferidos no máximo 3 embriões e foi o que fizemos. A transferência é um procedimento super rápido e indolor e a gente acompanha tudo pelo vídeo da ultra. Naquele momento eu estava grávida!!!! Pelo menos, o mais próximo disso que jamais estive.

Sai da mesa de cirurgia cheia de cuidados e quando a enfermeira me perguntou se eu precisava ir ao banheiro aquilo me pareceu a coisa mais louca do mundo. O médico acabou de colocar os embriões você acha que eu vou conseguir ir ao banheiro?? Se eu pudesse eu andaria plantando bananeira! Eu nunca mais vou ao banheiro! Apesar do médico dizer que não precisava de repouso, era vida normal, é óbvio que eu fiquei de cama com as pernas pro alto por um bom tempo. Eu queria ter uma máquina de ultrassonografia em casa. Se eu pudesse ficaria monitorando a barriga o tempo todo para me certificar de que eles continuavam lá.

Então você espera alguns dias para poder fazer o teste de gravidez, dias que parecem anos... Fizemos o teste na clínica e o nosso médico nos ligaria à tarde com o resultado. Mas, nem todas as notícias são boas. Infelizmente eu não estava grávida. Na hora é aquele balde de água fria, um desânimo, uma vontade de desistir... Nosso médico foi super gentil, como sempre e nos disse que tentaríamos de novo. Se quisessemos usar os embriões congelados, já poderíamos tentar de novo agora após a menstruação.

A pior parte foi contar às pessoas que não estávamos grávidos. Havíamos contado apenas para a família, mas a cada ligação era como se estivéssemos recebendo a notícia novamente. As pessoas ficam dizendo que é muito difícil conseguir de primeira, mas a estatística é a mesma para cada tentativa, independente de quantas vezes já tentou. Então, por que nós não poderíamos conseguir de primeira? A gente fica tentando se consolar, dizendo que poderia ser pior, poderia estar grávida e perder, ou ter o bebê e não nascer saudável. Mas, é muito difícil de ser consolada.

Então, eu fiquei menstruada. Foram sensações meio loucas. Ao mesmo tempo que eu queria ficar logo para poder começar o processo novamente, veio um desânimo forte de ter que passar por tudo novamente e a constatação do fato de que o exame de sangue não estava errado. A gente sempre se agarra à esperança de o exame estar errado. Ainda temos 2 embriões congelados e fazer a transferência deles é muito mais simples. Será que os 2 que deixamos guardados serão os nossos bebes?

Ninguém soube que estávamos tentando novamente, desta vez só contaríamos quando tivessemos boas notícias. Até lá, vivendo normal! Sem pensar muito nisso. Na 1ª transferência eu tive medo de ir ao banheiro, na 2ª sai da clínica direto para um churrasco com piscina. Vida normal.

Até que chegou o dia do teste de gravidez. Tentei ficar o mais calma possível e para ajudar não quis nem ir à clínica fazer o exame, fiz num laboratório normal, como se fosse a coisa mais comum do mundo. Liguei para pegar o resultado à tarde e estava tão nervosa que não consegui entender o que a atendente disse “... valor 4 não sei o que”. Eu só sabia que era diferente do resultado da última vez que começava com “Inferior a...”. Ela me disse que colocaria o resultado na internet e nós fomos direto olhar. O que ela havia dito foi: “Hormônio Gonadotrófico Coriônico (HCG): 436 mUI/ml”. Nós sabíamos que este resultado era melhor que o outro, mas ainda não sabíamos se eu estava ou não grávida!!

Ligamos pro nosso médico e lemos para ele. E ele nos disse “Gravidíssima!!!” Esperamos tanto por esse dia e eu tinha quase certeza de que não tinha funcionado novamente, porque tive muita cólica, que a ficha demorou MUITO a cair. Só acreditei de verdade quando vi o coraçãozinho batendo na ultra. Eu queria sair da clínica gritando para todo mundo ouvir!! Dar a notícia às pessoas foi uma das coisas mais gostosas. É muito amor!!

Minha gravidez foi super tranquila e após o 1º mês nós deixamos a clínica e eu já passei a fazer o acompanhamento diretamente com a minha ginecologista. Mas, voltamos à clínica para mostrar o barrigão ao nosso médico, ligamos quando a Gabi nasceu e depois a levamos lá para que ele conhecesse. Ele e toda a equipe. Porque aquelas pessoas passam a fazer parte da sua vida. E o que é apenas mais um dia de trabalho para eles é a realização de um sonho para gente.

A Gabi está prestes a completar 2 anos e um dia desses uma psicóloga da clínica me ligou para saber como nós estávamos. Ela me perguntou, depois de toda a experiência, como eu me sentia agora e eu disse: “Agora eu me sinto completa!”

Lily é casada com o Marcelo e é mãe da Gabriela. Ela não descobriu simplesmente que estava grávida, ela teve que “trabalhar” muito por isso. E agora ela quer ajudar outras mamães nesse “trabalho” lá no Bebedinhos