Então, né... essa questão é bastante interessante, pra mim.
Eu tenho muitos amigos casados, com ou sem filhos e faço observações e análises escondida e reparo um pouco aqui e acolá como se relacionam. De fato, cada Família é uma e a dinâmica é própria!
Assim que se casou, há quase 35 anos, minha mãe parou de trabalhar. Ela não parou de trabalhar pra ficar em casa com os filhos até certa idade e depois voltar ao mercado de trabalho, nem porque pensou sobre isso e considerou ser o melhor para sua Família, ou qualquer coisa do tipo. Ela parou de trabalhar porque casou e naquela época o mundo era ainda mais machista e mesquinho. Enfim, os 4 filhos cresceram e a caçula aqui casou.
Algumas semanas depois que eu me casei, liguei pra minha mãe pra saber como ela estava e ela fez as perguntas de praxe desde sempre: 'tá tudo bem com você?' 'tá comendo direito?' 'e a faculdade?' 'quer que eu faça comida pra você?' 'quando sair de casa, toma cuidado!' 'muito juízo' 'Deus te guie te guarde e te proteja' e por aí vai.
Eu respondi: 'mãe, relaxa! tá tudo bem! eu tô ótima e se eu precisar de qualquer coisa, vou te falar... aproveita que eu já casei e pensa que é uma preocupação a menos pra você, oras! uma responsabilidade a menos nas suas costas, afinal, agora, de fato, sou responsável por mim mesmo'. Verdadeiramente, meu pensamento é esse. Eu estava casada, independente (emocional, física e financeiramente) dos meus pais, ela não precisava mais se preocupar com as coisas de antes. Pais sempre vão se preocupar com os filhos e pensar neles e permanecer disponíveis (assim penso eu que deveria ser), mas aquelas preocupações diárias de antes não são mais necessárias, certo?! Pode ser radical demais, mas eu entendo que essa é a forma mais saudável de se levar as coisas.
Na verdade, quando penso nos meus pequenos, não penso que assim será depois que eles casarem, mas assim que atingirem a maioridade. A festa de 18 anos será a mais especial pra mim! Hora de olhar pro herdeiro e pensar (tomara!): 'uau! Meu trabalho tá feito! Fiz tudo o que pude e mais um pouco pra criar essa pessoa que se tornou um ser humano independente, autêntico, saudável e feliz, que vai viver a própria vida agora, respondendo legalmente por seus atos'. Pensamento muito surreal, maldoso ou romântico? Não sei. Mas é dessa forma que eu espero que seja. É óbvio que eu quero estar sempre disponível pra tudo que meus filhos precisarem, independente de idade ou momento de vida. Porém, tem coisa mais feia que um marmanjão na saia da mãe? Ou uma mulher no auge dos seus 30, insegura e mimada? Ah, isso eu não quero pros meus filhos não! Nem pensar!
Mas, voltando ao assunto, depois que eu disse aquilo pra minha mãe, ela respondeu 'é, eu sei! E é isso mesmo, eu não devo me preocupar, mas ainda estou me acostumando. Na minha época, mulher casava pra cuidar de marido e de filho. Com vocês casando e se ajeitando, eu ainda não sei bem o que fazer'.
AI! Eu fiquei meio perturbada na hora e só consegui responder 'então tá mãe, aqui tá tudo bem, aí tá tudo bem, depois eu te ligo!'. Tirando o fato de eu não ter conseguido ajudar minha mãe (depois eu voltei a falar com ela a respeito, tá? Não sou tão desnaturada... rs), o que ficou disso tudo pra mim é que eu quero ser diferente. Gente, como assim 'a mulher casa única e exclusivamente pra cuidar do marido e dos filhos?'. Eu não sou feminista nem machista, tenho meus próprios pensamentos, princípios, crenças e opiniões sem levantar bandeira alguma.
Acontece que, nessa história toda, em que canto frio e sombrio ficou a mulher? A pessoa, o ser humano dotado de desejos, vontades, sonhos, planos? Um ser pensante e com personalidade própria? Vejam, eu não estou dizendo que as crianças não precisam de atenção e cuidados e o marido deve ser negligenciado. MUITO AO CONTRÁRIO! O fato é que é preciso encontrar um ponto de equilíbrio (por mais difícil que seja) e se valorizar também.
Sempre que converso com meu marido sobre isso ou quando simplesmente devaneio a respeito, chego à conclusão de que tudo tem seu tempo, momento, ocasião, e por aí vai. Não posso deixar de cuidar de mim mesmo quando tiver filhos pequenos, porque eles vão crescer, e, pensando que esse crescimento será saudável, na hora certa, não precisarão mais de mim para absolutamente tudo. Percebem? Eu não quero falar pra minha filha, após algumas semanas de seu casamento, o que minha mãe me disse.
Encontrar um ponto de equilíbrio não é fácil, mesmo. Mas é possível, eu garanto. Por que eu garanto? Porque tenho a honra de acompanhar pessoas em sua existência, no meu trabalho. A área Clínica me proporciona experiências fantásticas, que, com certeza, levarei pra minha vida pessoal. Uma dessas experiências é conhecer o que pode acontecer na vida de uma mãe que se anula completamente em função dos filhos e marido e, igualmente, o que acontece com os filhos e o marido.
É fantástico poder se doar ao outro, cuidar, oferecer apoio e atenção. Mas quando se esquece de se cuidar também, tudo fica conturbado e fora do controle. Pode-se projetar as próprias emoções no outro e aí, é problema.
Sabe tudo aquilo que foi anulado e deixado pra trás, não necessariamente pra somente cuidar integralmente dos filhos, da casa, do marido, mas tentar se moldar ao politicamente correto (vamos pensar que alguns casos são realmente assim, né?! Os pais não vêm o menor problema em deixar os filhos na escola para trabalharem, por exemplo, e de fato a criança pode crescer numa boa, com pais agindo de forma autêntica e responsável, mas, porque têm-se pregado que o único modelo certo é a mãe ficar em casa o tempo todo com os filhos, lá vão os sonhos todos jogados pra debaixo do tapete) ? Pois é! Tudo isso pode vir à tona mais pra frente na criação dos pequenos. Não é incomum pais que tiveram profissões frustradas quase obrigarem os filhos a seguir aquilo que não puderam fazer, ou mães que fazem chantagens emocionais do tipo ‘deixei tudo por você e agora você vai simplesmente mudar de país e me deixar aqui?’ ou pais que não respeitam a individualidade dos filhos porque deixaram sua individualidade de lado.
Ainda nesse exemplo de trabalho, digo que pode ser muito mais saudável uma mãe trabalhar fora e, quando está em casa é disponível ao filho, do que uma mãe que passa o dia inteiro com o filho em casa, mas não o conhece, não brinca com ele, não o ensina, não é ‘integral’. Sim, isso acontece.
É claro que eu não posso ter certeza de como será a minha experiência particular, visto que não tenho bebês ainda. Mas uma certeza eu tenho: vou tentar ser diferente, ao menos tentar. Vou guardar com carinho e respeito os 'modelos' que tenho prestado atenção hoje, pra saber o máximo possível como agir, quando for a minha vez. Vou errar? Óbvio! Porque não sou perfeita, ninguém é. Mas vou tentar me adaptar o melhor possível em minha própria experiência e naquilo que a vida preparar pra mim, tentando não deixar de ser eu, no lindo ‘nós’ que uma Família é. Porque o ‘nós’ é muito, muito melhor quando cada um sabe do seu ‘eu’. E o tempo todo correrei atrás do equilíbrio! Nem que passe a vida toda tentando encontrá-lo.
E eu não falo disso tudo só em relação ao trabalho, por exemplo, que é um assunto polêmico e carregado de culpas, quando a mãe pensa 'paro de trabalhar ou não quando tiver filhos?'. Nisso, minha opinião é formada: eu vou ficar em casa com eles até certa idade, trabalhando home office ou não, mas, no que depender de mim e do marido, eles não frequentarão creches. Ok, isso é assunto pra outro dia.
É sobre tudo! Mãe não deixa de ser mulher, depois que se torna mãe. Ela continua tendo sonhos, vontades, amigos, marido, gostos pessoais e tudo mais. É preciso cuidar disso, cultivar isso, não anular-se. No período em que o pequeno precisar única e exclusivamente da mãe, ela tá lá! Feliz e disposta, realizada e cuidando de seus outros papéis com a mesma (ou o máximo possível de) dedicação e respeito.
Aí, quando as crianças forem maiores, tiverem seus próprios compromissos, sentirem vergonha de serem levados à escola pela mãe e atacadas de beijos na frente da menina que gostam, passarem a noite fora, decidirem mudar de país, morar sozinho ou se casar, ela não vai ficar pensando 'o que eu faço agora'?, porque ela sabe quem é e como é.
Isso não é egoísmo ou uma forma individualista de pensar. O fato, é que amar, respeitar e cuidar das pessoas pode ser mais difícil quando não se ama, respeita e cuida. Quando estamos bem com a gente mesmo, é mais fácil estar bem com o outro. Quando não estamos satisfeitos com a gente mesmo, é mais difícil estar satisfeito com o outro. Uma mulher feliz, em geral, será uma mãe mais feliz. E gente, acreditem: o filho percebe! O filho sente.
E quem foi que disse que não dá pra continuar sendo mulher (em suas inúmeras facetas) quando se torna mãe?! Dia desses uma amiga disse que não queria ser mãe agora porque não queria deixar de fazer as viagens que costuma fazer e eu disse: seu filho não pode viajar com você? Será proibido viajar depois de ser mãe?
Por isso eu digo: cuide-se! Ame-se, valorize-se, respeite-se. Assim, os relacionamentos ficam melhores. O casamento fica mais saudável, a criação dos filhos fica menos difícil.
É isso! Eu vou tentar ser assim, quando os pimpolhos existirem! Porque quero o melhor pra eles, pro meu marido, pra mim e pro mundo que nos acolhe. Essa é a minha escolha. Seja qual for a sua, faça-a de forma consciente! =)
Talita Guedes Bittioli, psicóloga graduada pela Universidade Metodista de São Paulo, com extensão na abordagem Fenomenológico-Existencial. Palestrante em Escolas sobre diversos temas relacionados ao contexto Infantil, para pais e alunos. Ainda não é mãe, mas é apaixonada pela maternidade e principalmente pela Família.
Saiba mais sobre o trabalho de Talita aqui
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