Por: Ludmila Carvalho

Meu filho já vai completar seis meses, mas a lembrança do seu meu nosso parto é tão fresca que parece que foi ontem. Tive o parto normal que tanto queria, sem anestesia e tão rápido que o médico quase não chegou a tempo, mas nem tudo foram flores. Só depois de ler muitos relatos de outras mulheres e de me informar um pouco mais sobre a situação obstétrica no Brasil é que me dei conta de que fui, sim, vítima de violência obstétrica – não uma violência grave, mas sim sutil, tanto que na hora eu nem percebi. Como, aliás, acontece com quase todas as mulheres que têm partos hospitalares.

Desde a primeira consulta deixei claro ao obstetra de que queria um parto normal. Embora na época não fosse militante do assunto, sempre me pareceu absurdo optar por uma cirurgia de grande porte para um ato que deveria ser fisiológico e natural. Sinceramente, eu tinha muito mais medo da anestesia e do corte de uma cesárea do que das dores do parto normal. O médico bem que tentou me boicotar sutilmente,  ameaçou não estar presente na hora (ele tinha uma viagem marcada para uma data próxima à data prevista do parto), mas eu não dei a mínima. “Se não for com você, será com o plantonista do hospital”, dizia em tom de brincadeira, mas deixando bem claro que o papel dele ali seria secundário. A protagonista, a insubstituível era eu.

Eu estava tão decidida que aos poucos ele terminou embarcando na minha vontade. Vencida uma etapa, ainda havia a incredulidade dos outros – amigos, conhecidos e parentes que duvidavam de mim. Ouvi de muita gente instruída que só bicho tinha parto normal (como se a gente não fosse bicho), que a cesárea era mais segura (Oi? Pra quem?), que ninguém mais da nossa geração tinha parto normal etc. Até minha mãe, que teve três cesáreas, me disse, já na reta final, que achava que eu não ia conseguir (talvez ela estivesse projetando um medo que foi dela mesma, não sei).

É difícil manter-se confiante diante de tantas dúvidas. Tive, sim, medo de não ser capaz, de não aguentar a dor, de dar alguma coisa errado na hora. Mas meu corpo sabia o que fazer. Faltando um dia para completar as 40 semanas, comecei a sentir as contrações e logo perdi o tampão mucoso. Eram onze da noite, eu e meu marido esperamos as contrações aumentarem em casa. Tentei cochilar mas não consegui. Por volta das três da manhã decidimos ir para o hospital. Lá fui examinada e me disseram que estava com quatro centímetros de dilatação. Nada de conseguir falar com meu médico (que devia estar em sua caminha esperando chegar mais perto da hora), fiquei sentindo as dores na emergência mesmo, pois nos disseram que não havia vaga na maternidade. Fui completamente esquecida. Só contei com a ajuda de uma enfermeira que segurava minha mão toda vez que meu marido tinha que ir à recepção tentar resolver a burocracia. Eu não queria analgesia, mas se quisesse ninguém teria me dado.

Quando não havia mais intervalo entre as dores, exigimos que a plantonista viesse me examinar novamente. Eram quase seis da manhã. Ela me examinou e disse que a dilatação estava completa, e chamou uma maca correndo! Nesse momento eu senti uma euforia tão grande por estar chegando ao fim que nem reparei em como tudo foi corrido e atrapalhado. Meu obstetra chegou aos 45 do segundo tempo, e a sala de parto não estava sequer arrumada. E o pior: meu marido foi proibido de entrar comigo. Agora sabemos que é um direito assegurado da parturiente ter um acompanhante, mas na hora a agonia e o nervosismo nos deixaram paralisados.

Entrei sozinha, mas felizmente o expulsivo foi tão rápido que em menos de uma hora nosso pequeno Marcel chegava ao mundo, lindo, esperto, direto para meu colo. Pude curti-lo enquanto meu marido finalmente entrava na sala de parto, pude me despedir da placenta, mas foi só isso. Quando levaram o bebê para o berçário ainda não havia vaga para mim na maternidade, de maneira que voltei para a emergência para esperar três longas horas por ele.

Eu estava tão feliz com a chegada do bebê que não percebi estes detalhes. Não me dei conta de como fui negligenciada pela equipe do hospital, incluindo o médico e as enfermeiras que quase boicotaram minha amamentação no dia seguinte. Deu tudo certo sim, mas depois eu fiquei pensando que poderia não ter sido assim. Poderia ter dado tudo errado naquela espera sozinha na emergência. Poderiam ter inventado uma complicação qualquer para me submeter a uma cesárea. Poderiam ter me dado ocitocina sintética sem me consultar. Poderiam ter conseguido empurrar o leite artificial na minha primeira e desesperada noite como mãe de um bebê que chorava sem parar.

O parto natural do meu filho foi um momento transformador – transformei-me em mãe-mamífera! Nunca senti tanto orgulho de uma conquista minha, nem mesmo quando defendi meu doutorado numa língua estrangeira. Tudo o que deu certo foi graças unicamente à mim, à minha força de vontade, à sabedoria irracional do meu corpo, ao meu marido que me apoiou incondicionalmente em cada etapa do processo e, claro, ao meu bebê que sabia como nascer e brilhou na hora H. Tudo o que deu errado foi graças à instituição hospitalar. Mas não é para ser assim.

Eu cheguei a acreditar durante a gravidez que a minha força de vontade era o que bastava, e o resto não importava (O médico não cooperava? O hospital era ruim? Eu fazia pouco caso), mas a verdade é que importa sim. Afinal, porque devemos lutar sozinhas contra um sistema que não nos respeita, quando deveríamos ser amparadas por ele? Porque devemos enfrentar o descaso e a incredulidade ao decidir pelo parto normal, quando deveríamos ser incentivadas? Por enquanto ainda não penso em ter outro filho, mas se tiver já sei que vai ser do meu jeito – domiciliar ou não, tenho certeza de que estarei amparada apenas por pessoas que me respeitam.

 

Ludmila Carvalho, 31 anos, mãe do pequeno Marcel, jornalista e pesquisadora. Já pensou mil vezes em escrever um blog sobre maternidade, mas achou melhor guardar seus pensamentos só para ela e seu filho. Escreve um blog de comidas e receitas, o The Inner Life of Food (http://receitasdalud.blogspot.com/).

 

*Esse post é parte da blogagem coletiva proposta pelos blogs Mamíferas, Parto no Brasil e Cientista que virou mãe. Você pode fazer o  teste da violência obstétrica no nosso fórum.