Por: Leonor Macedo
Dia desses, levei o Luquinhas em uma festinha no prédio da minha mãe. Lá pelas tantas, uma menina de sete anos, toda bonitinha e serelepe, veio falar comigo:
- É verdade que o Lucas já teve 11 namoradas?
- Sim. Por que? Ele está te paquerando?
- Tá sim! Quer dizer, nós dois já estamos namorando. Mas só até o fim da festa.
Tipo ficando, sabe?
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O caso é que, apesar de ser a 12ª namoradinha do Lucas (e contando!), ele foi o primeiro namorado dela. Aquele que ela vai lembrar por bastante tempo, talvez. E quando as filhas dela, no futuro, perguntarem quem foi seu primeiro namorado, ela vai responder, com aquele sorrisinho no rosto de quem tem saudades da infância, que o nome dele era Lucas.
Do mesmo jeito que eu me lembro do Rafael, meu primeiro namoradinho do maternal. Acho que já contei aqui no blog sobre ele: um molequinho que comia bolachas do chão. Quando ele se mudou de escola, passou um tempo ligando em casa, aos prantos, para dizer que tinha saudades.
Logo depois, no pré II, eu namorei outro Rafael. Esse foi um namoro longo, durou acho que um ano, até que ele me trocou pela Ana Elisa. Depois vieram Flávio e Antônio ao mesmo tempo, porque, veja bem, eu era uma mulher magoada e precisava me vingar. Lembro que, durante o recreio, eu sentava na área do bebedouro, no meio dos dois para receber cafuné.
Aí eu enfrentei uma longa seca, da primeira série até o segundo colegial, quando eu conheci o Luiz. Às vezes cometo o equívoco de dizer que ele foi o meu primeiro namorado, ignorando a existência do Rafael. E, na bem da verdade, o Rafael me ensinou tudo o que eu sei sobre o amor, afinal quem é que continua amando vendo o outro comer bolacha do chão?
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Logo, a festa toda sabia do namoro dos dois e eu dei o azar de a família inteira da menina estar no evento. Aos poucos, tio por tio veio falar comigo:
- Ela me contou que eles estão namorando, mas acha que não vai dar certo porque o Lucas é muito galinha.
Como ele poderia não ser se as meninas só querem namorar com ele até o fim da festa? Meu filho é tipo uma unanimidade: 12 das 12 meninas que ele já namorou meteram-lhe a bicuda.
Ainda assim, preciso explicar para ele que algumas coisas em um namoro não devem ser ditas, mesmo que a companheira ou o companheiro queiram saber. Isso é um bom conselho para a vida toda. Não vale a pena perguntar o que você não quer ouvir. Nem dizer aquilo que ninguém quer ouvir. Acho que a gente tem uma mania meio sadomasoquista, desde criança, de querer saber sobre o passado dos outros sabendo que não vai gostar da resposta. Então eu aprendi que é melhor não perguntar. E se te perguntarem, é melhor não responder.
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Daí veio a avó da pequena. Estávamos sentados no sofá: eu, meu namorado (o terceiro Rafael) e um amigo do Lucas jogando videogame. Ela, de pé na porta do prédio, puxou papo. Contou que era o primeiro namorado da menina e que achava tudo muito avançado para a idade. E o amiguinho do Lucas jogando videogame.
Eu lhe expliquei que o Lucas já tinha tido várias namoradinhas, mas namorar para ele era brincar junto na hora do recreio. Que nem pegar na mão ele pegava. Que eu conversava muito com ele. E o amiguinho do Lucas jogando videogame. Até que ele abriu a boca, ainda jogando videogame:
- É, o Lucas até pediu para eu falar com ela para ver se ela queria… você sabe.
O que? Namorar com ele? Brincar com ele? Achei até fofo o menino ter feito as vezes do cupido.
- Não sei – respondi, ainda sorrindo. O que?
Ele soltou o DS e fez aquele gesto de foder. Sabe? O “TOP”? Ele fez exatamente isso. Só um top.
- O QUE???????????????? – dei um grito.
E aí ele fez vários tops. TOP! TOP! TOP! TOP! TOP! TOP!
Te pergunto: o que se faz em uma hora dessas? Porque eu sabia que a avó da menina estava ouvindo aquilo e que eu não passaria de estado sólido para gasoso em segundos só para evitar a situação de ter que olhar para ela. Pensei em sair correndo, pelada, gritando pelo prédio para desviar a atenção, mas meus pais ainda moram lá e eu não poderia comprometer a moral de TODA a família, já que parte dela tinha sido perdida ali, naquele momento.
Meu namorado pegou o celular e começou a jogar compulsivamente só para não ter que olhar pra véia. Eu me virei, lentamente, para encará-la. Ela me olhava com aquela cara de “O HORROR! O HORROR!” e eu só disse:
- Um minuto. Vou conversar com ele.
Saí daquela cena e fui até o parquinho, onde os dois brincavam de gangorra. Chamei o Lucas de canto e contei mais ou menos o que tinha acontecido, poupando-lhe dos gestos obscenos:
- MÃE, PELO AMOR DE DEUS, EU NÃO FALEI NADA DISSO!
Ele ficou bem desesperado.
- O que foi que aconteceu, então?
- Eu estava com vergonha e pedi que ele fosse conversar com a menina porque eu queria namorá-la. Só isso. Nunca disse sobre transar com a menina. Nunca transei com ninguém.
Ufa!
- Bom, se todo dia a gente aprende uma lição, a de hoje é que você não pode contar certas coisas para certas pessoas porque elas podem te colocar em situações como essa, Lucas. E agora?
- Conversa com a avó dela, por favor? Diz que eu não quero transar com a neta dela.
Tem cabimento? Eu tendo que ir falar para a avó de uma menina de 7 anos que meu filho de 9 anos não quer transar com ela? Nem por um cacete cravejado de diamantes. Mas fui até a senhora e expliquei que tudo tinha sido um mal entendido. Assim, com poucas palavras.
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Passei o resto da festa sentada no parquinho, olhando os dois brincarem. Não que eu tenha achado que eles iam transar se eu não estivesse ali. Fiquei olhando com saudade desse tempo que logo passará. Sei que em breve as coisas ficarão mais sérias para o Luquinhas. Daqui a alguns anos, espero, as brincadeiras de gangorra darão lugar a cinemas, sorvetes e telefonemas demorados com “desliga você”, “não, desliga você primeiro”. E as brincadeiras de trepa-trepa, bem, serão brincadeiras de trepa-trepa.
(Post originalmente escrito em maio/2011)
Leonor Macedo é jornalista, corinthiana, mãe do Lucas e autora do blog Eneaotil
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