Por: Lavínia
Pela manhã, enquanto arrumávamos a bagunça dos meninos, minha funcionária me contou de uma vizinha que tinha acabado de ter o terceiro filho. Escrevo no masculino só pelo “machismo” gramatical: era uma menina, a caçulinha. E a mais nova mamãe está toda feliz.
Os dois mais velhos eram meninos e ela sempre quis uma mocinha. Íris, minha funcionária, que tem uma menina e não pensa em ter outro filho, estava inconformada com a coragem (ou falta de juízo) da moça da porta ao lado: “três filhos é pra mulher louca!”, dizia. Eu fiquei pensando, se a Íris dissesse isso para radiante mamãe, esta lhe responderia: “Você fala assim porque já tem a Yasmim!”
Na minha segunda gravidez, todas as torcidas eram para que fosse uma menina, uma vez que eu já tinha meu varão. Era só o que eu ouvia: “Agora vem uma menina!” “ Agora vem uma menina!” “Agora vem uma menina!” Parecia um mantra. E acabaram me convencendo de que era uma menina. Foi, praticamente, uma lavagem cerebral.
Quando, com apenas 13 semanas, descobri que era outro menino, foi um susto. “Então não estavam certos, não era uma menina?” “Não é sempre assim: primeiro um menino depois uma menina?” E por um lampejo de tempo meu coração doeu. Mas me recuperei rapidinho, o que foi extremamente necessário para consolar as demais pessoas do planeta. Quando eu dizia: “É um menino!!!!” As expressões e as falas não conseguiam disfarçar a quase piedade que sentiam de mim. “Será que o ultrassom não tá errado, espera o próximo, erros acontecem!!!” “Tem seu lado positivo, vai poder usar as coisas do irmão”, "Não fica triste não, depois você tenta uma menina” até um “Aiii que pena” eu ouvi.
De repente lá estava eu me antecipando: “Olha, é menino, mas eu tô feliz, viu”! E ninguém acreditava. Eu nem tinha parido o segundo filho e a pergunta que eu mais ouvia era “Vai tentar uma menina depois, né?”
E não satisfeitos em alardearem sua pena (só faltava oferecerem o ombro pra eu chorar) ainda elencavam as intermináveis vantagens de se ter meninas: são mais calmas, mais companheiras, são mais dengosas, adoram fazer gracinha. Você pode colocar lacinho, vestidinho, sapatinho. Rosa é mais bonito que azul. Prefiro lilás a verde, Polly a Hot Wheels, Moranguinho a Bakugan. Roupas e sapatos podem ser trocados aumentando, significativamente, o tamanho do seu closet. Vão adorar te acompanhar no salão de beleza, não te deixam cair no ridículo, servindo de personal stylist, quando você chegar a uma idade em que não entende mais de moda. Trarão os filhos e o marido (aquele ingrato que deixará a mãe) para passar o Natal. Serão suas amigas. Vão cuidar de você.
Ouvir tudo isso me causava certo desconforto. Parecia que ter menina era garantia de felicidade, a concretização do sonho cor de rosa, enquanto que ser mãe de menino era exílio em um mundo de heróis japoneses, quimonos, bolas de futebol e solidão.
Comigo não, violão. Sinto-me felicíssima pelo que os meus filhos são: meninos. Meninos sapecas, agitados e muitos carinhosos.
E espero que vocês, meus moleques, não duvidem nunca desta felicidade. É divino dividir este mundo com vocês. Não se animem (ou não se preocupem) não tenho planos de aumentar família, com meninos ou meninas...
E só para que fique claro, eu sempre preferi azul e quando eu cansei de brincar de carrinho comprei Pollys para mim. Vocês acharam “bem chato” e aquelas bonequinhas, cheias de apetrechos, perderam a completamente a graça. Descobri que melhor do que brincar era brincar com vocês e ver o entusiasmo com que vocês brincavam. Quando chegar a hora vou adorar Bakugan.
Já vou avisando, não precisarei de "personal stylist". Quando eu, depois de me aprontar, perguntar a vocês: “Ficou bom?” Digam sempre: “Você está linda, mãe!” Minha noção sobre moda não se extinguirá e não gosto de pitacos no que eu visto.
Como não poderemos dividir roupas e sapatos, aprendam me presentear. Não sou difícil de agradar e detesto trocar presentes. Então, prestem atenção no que eu gosto e me acompanhem de vez em quando nas minhas compras. Só bem de vez em quando, não vai doer.
Saibam que salão de beleza é um lugar necessário e divertido. Mas é preciso fugir de lá depois de folhear, sem prestar atenção, duas ou três revistas Caras. Haverá sempre lugares mais interessantes pra gente matar o tempo juntos.
Não se esqueçam de me ligar na noite de Natal, vou tentar me lembrar de deixar o número do hotel.
Sinto dizer, mas não serei amiga de vocês. Eu não poderia ser só uma amiga e nem a melhor amiga. Sou mãe e não quero ouvir tudo, não quero saber de tudo e tampouco espero que vocês sejam meus confidentes...
Lembrem-se: vocês são meus filhos, não preciso que sejam meus companheiros. Encontrarei companhia no teu pai, nos meus irmãos, nos meus amigos ou na minha própria solidão. Por isso curtam-se, cultivem amizades, namorem. E apareçam sempre... Ataquem a geladeira e deitem abraçados comigo no sofá... Rogo à Deus e me cuido direitinho para que vocês não precisem cuidar de mim, mas sei, do fundo da minha alma e do meu coração, que vocês cuidarão!!!
Lavínia Monteiro - Mineira, psicologa, mãe do Murilo e do Heitor autora do blog: Mãe é assim...





