Por: Marina Fiuza

O tempo foi passando e os ponteiros do relógio pareciam ficar mais pesados, assim como eu. Os minutos se arrastavam em círculo e, não tendo mais o que fazer entre meus intervalos de choro, eu comia.

Nos primeiros meses eu apenas aumentei as porções do dia. Em vez de duas colheres de arroz eu já começava com quatro. Depois as porções ficaram tão grandes que precisavam ser divididas em dois ou três pratos. Certo dia, quando eu partia para o quarto prato de bobó de galinha com arroz e batata palha, meu irmão segurou minha mão indignado. De acordo com ele o meu estômago estaria tão dilatado que o espaço para o bebê dentro da minha barriga diminuía a cada garfada. Ele temia pela vida de um bebê esmagado pelo bobó de galinha.

Não com muito entusiasmo, fiz a minha inscrição na hidroginástica. Achei um maiô preto no fundo da gaveta da minha mãe que ficou perfeito. Com a lycra brilhante a la anos 80, eu parecia uma orca ao contrário: barriga preta reluzente e costas e membros brancos. Praticamente a Shamu. Olhei para baixo para averiguar o estado cabelístico da minha virilha. Contudo, só o que consegui avistar depois daquela imensa barriga era a ponta dos meus dedos do pé. “Ótimo”, pensei. Aquela velha história de que o que os olhos não vêem o coração não sente.

A sala cheirando a cloro era relaxante por si só. Eu poderia pegar no sono ali mesmo, na arquibancada. Infelizmente a professora notou a aluna nova (não sei porque eu pensei que tudo aquilo que era eu poderia passar despercebido, mas enfim...) . Fui apresentada ao grupo de sessentonas atléticas. Todas sorriram simpaticamente. Pelo visto não tinha como eu escapar.

Caminhei em câmera lenta até a beira da piscina com medo de aquaplanar nas poças de água até que cheguei à escadinha. Olhei bem para aquelas frágeis estruturas de alumínio e preferi sentar na quina da piscina, com uma nádega em cada um dos lados. Estiquei meu braços e lancei-me na piscina olímpica causando um mini tsunami que chegou até a outra margem sem grandes danos.

Ao contrário do que eu imaginava, a aula de hidroginástica não era nada relaxante. Logo nos primeiros dez minutos eu já estava cansada o suficiente para dormir uma semana inteira. E depois de duas ou três aulas a professora também não estava tão mais paciente com minhas limitações e me mandava boiar toda vez que o exercício proposto era abdominal. Não que eu achasse ruim. Muitas vezes ela se esquecia de mim e eu continuava boiando pela piscina a aula inteira num estado de semi-sono. De vez em quando eu colidia com algum aluno e levantava assustada percebendo que eu ainda estava na academia, e não flutuando entre as nuvens. Pedia desculpas meio sem graça, dava uns pulinhos para trás e voltava a boiar sem nem olhar se o exercício abdominal tinha acabado ou não.

Da segunda semana em diante a rotina estava estabelecida: tsunami, boiada, guindaste para fora da piscina, casa, geladeira, cama. Os três meses de hidroginática me renderam ótimas tardes de sono, um apetite ainda maior e, é claro, um cabelo desidratado.

Post escrito originalmente em 26.02.10

Marina Fiuza - Menina que precisou se disfarçar de gente grande. Usa a filha e o mestrado como desculpa para continuar brincando e lendo livros infantis. Não pretende crescer nos próximos anos. Autora do blog: MÃE-SOLTEIRA RECÉM-CASADA, uma das grandes inspirações da blogosfera materna.

Imagem: daqui