(Sônia e Ângelo, poucos minutos antes do Renato cortar o cordão umbilical, Jul/2007)

Por: Sônia Carvalho

 

O que chamamos de senso de identidade é a certeza de que nosso eu mais profundo, mais forte e mais verdadeiro persiste através do tempo, a despeito da mudança constante. É a sensação de um eu verdadeiro mais profunda do que qualquer diferença, o eu para o qual todos os nossos outros eus convergem... Todos nós, no começo, precisamos de uma mãe que nos ajuda a ser, a mãe que nos ajuda a estender o braço e reclamar o que nos pertence, a mãe que nos ajuda estabelecer uma certeza central - tão certa quanto as batidas do nosso coração - de que nossos desejos e sentimentos são nossos...

Judith Viorst, "Perdas Necessárias

Eu sempre ouvi de algumas amigas que o primeiro dia em que deixaram seus bebês na creche ou na escolinha foi devastador. Elas me falavam sobre a tristeza e o vazio que tomava conta de suas vidas naquele curto momento entre o deixar a criança nas mãos de estranhos e sair de fininho para uma vida sem ela.

Me falavam também de terem ficado observando seus filhos pelo vidro... de abafarem o choro ou de soluçarem quietinhas, absolutamente sozinhas do lado de fora.

O fato é que eu ouvi com carinho essas amigas, mas nunca consegui entender esse sentimento de verdade. É algo que você tenta compreender, mas a falta de experiência não absorve.

Essa semana foi a primeira semana do Ângelo na creche-escola. Aqui na Suécia só existe essa opção quando a criança completa 1 ano de idade. Antes disso, não há opção particular ou pública. Os pais são pagos pelo Estado para estarem com seus filhos, na licença paternidade ou maternidade. E quando elas vão para o "Dagis", elas aprendem a cuidar de si próprias, terem muitas atividades no mesmo dia e a se desenvolverem cada vez mais como pessoa.

E, então, os primeiros três dias dessa semana foram agitados, mas foram bem mais fáceis do que eu tinha imaginado e do que haviam me contado. Até ontem, Ângelo não havia chorado. Eu havia estado junto com ele na maior parte do tempo, para fazer a adaptação da primeira semana.

Naquelas duas primeiras vezes em que disse: "Tchau Ângelo, a mamãe vai sair agora e volta depois para te pegar" nem ele, nem eu choramos. Parecia que precisávamos mesmo desse tempo. Ele, de brincar, conhecer mais gente, explorar o mundo pelo qual ele é tão fascinado. Eu, de um tempo apenas para respirar pelas ruas sozinha. Um tempo para pensar em mim e cuidar de mim. Haviam sido, porém, meia hora no segundo dia e uma hora no terceiro. Eu estava bem tranquila e a professora elogiou muito o Ângelo. Então, hoje, será o primeiro dia em que ele vai comer junto das outras crianças, brincar fora da sala e conhecer outros meninos e meninas. E foi o dia de deixá-lo por três horas e não ficar junto dele com a professora.

Tudo parecia apenas agitado e corrido até aquela mesma hora da qual minhas amigas haviam me falado. Pela primeira vez ele chorou um pouquinho, embora logo tivesse se distraído lá com as crianças no parquinho. Quanto a mim não foi a mesma coisa. Senti um choro preso na garganta, talvez algo como contou minha mãe ter sentido quando deixei Sumaré, e minha sogra, quando o Renato deixou Santo André. Naquele tempo, ambos fomos viver em Campinas e estudar na Unicamp, onde nos conheceríamos e nos apaixonaríamos. Senti a mesma solidão e dúvida que tomou conta de minhas amigas quando deixaram seus bebês no primeiro dia da creche.

E que tristeza boba. Uma sensação de que estavam arrancando Ângelo de mim, embora eu mesma tenha decidido por isso. Embora eu mesma tenha ansiado por fazer zilhões de coisas esse ano todo que passou. Todos meus planos de voltar a trabalhar, estudar, pintar, namorar o pai dele, arrumar a casa, tomar café com as amigas, sentar na frente da TV por alguns minutos, tudo pareceu muito ridículo agora de manhã. Ridículo e sem sentido.

E mesmo eu tendo trabalhado minha vida inteira, desde os 13 anos de idade. Mesmo eu tendo me ocupado durante 35 anos de minha vida sem essa pequena e maravilhosa criatura que é meu filho Ângelo, eu pareci não ter lugar no mundo. Como se eu tivesse apenas cuidado dele minha vida toda e nada mais tivesse feito. Nem as aulas muito agitadas que eu dava no cursinho, nem o mestrado ou o doutorado, nada parecia ter algum valor naqueles minutos depois de deixá-lo ali.

Quem era aquela Sônia? Quem é essa nova Sônia? Minha identidade pareceu perdida. Quem eu sou e que novo lugar eu tenho agora no mundo que não seja mais só ser a professora barulhenta, a esposa carinhosa ou a amiga "psicóloga"? Que devo fazer que não seja cuidar do Ângelo: fazer-lhe a comida, a mamadeira, trocar a fralda, dar-lhe abraços e dançar com ele durante o dia todo?

Há ainda o que eu possa fazer que seja tão valioso que fazer crescer saudável uma criatura?

Há ainda o que eu deseje fazer que não seja sentir sua pele macia no meu rosto e ouvir sua voz delicada?

Tudo isso me acometeu por alguns quarenta ou cinquenta minutos hoje de manhã.

Andei um pouco sozinha. Falei com meu companheiro de viagem pelo telefone e chorei muito. E aí uma nova luzinha foi se abrindo de novo... Sim, a gente está criando nosso Anjo para o mundo, ele disse. E eu sabia que, assim como nossos pais um dia fizeram, a gente deve fazer com ele. Sim, ele vai continuar nos amamdo e nós a ele, embora a gente deixe espaço para ele começar a ser essa criatura mais única e independente de nós. A vida continua. Provavelmente ainda melhor, porque eu posso voltar e unir-me a minha identidade esquecida desse um milhão de anos que foi o ano que passou. Melhor e mais feliz, porque nenhuma mãe consegue ser tudo o que um filho precisa por mais que o ame e ele precisa se completar com outras pessoas do mundo. Mais completa porque eu preciso ser mais do que a mãe do Ângelo. Preciso ser a Sônia, que também é a mãe do Ângelo. A Sônia que ele, há algumas semanas entendeu que eu sou, ao ouvir o pai me chamar assim.

E, então, eu me recompus. Olhei adiante e senti o mesmo que minhas amigas e nossas mães: apenas um profundo amor e a certeza de que se a cada dia mais o cordão será cortado, o amor, porém, nunca diminuirá. Caminhei rumo à casa mais aliviada e conseguindo enxergar muitas possibilidades que o amanhã reserva para mim, para o Ângelo e para o Renato e entendi perfeitamente o que minhas queridas amigas tentaram me dizer em seus momentos de perdas necessárias.

 

Sônia, mãe do Ângelo e da Marina, artista plástica, empreendedora, blogueira, autora do blog Borboleta Pequenina Somniando na Suécia, onde escreve sobre arte, curiosidades da vida na Suécia x Brasil, família e também sobre maternidade. Post escrito originalmente em AGO-08