Por Mari Sá
Assim que vi o MMqD nascer, fiquei com vontade de participar do seu, digamos assim, desenvolvimento. De colocar meu dedinho na sua criação, de levá-lo para passear, coisa que a gente só faz com filho de amiga. E não é que as meninas me chamaram para reeditar um post antigo, aquele sobre carreira e maternidade. Voilá!
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Antes de ser mãe, afirmei muitas vezes que eu gostaria (se tivesse escolha) de largar meu trabalho e me dedicar à maternidade, incluindo todo pacote da vida doméstica (casa, filhos, marido, etc e tal) e hoje posso dizer um grande, maiúsculo e gritado NÃO para esta opção! Agora quando bate essa vontade, sento e espero passar.
Não aguento ficar em casa tendo que dar conta de faxina, comida, criança, banco, médico, brinquedo, bagunça, choro, vela e o diabo-a-quatro. Eu me conheço muito bem para saber que eu não teria estrutura emocional para me dedicar 100% aos filhos e não "cobrar a conta" no futuro... Não sou evoluída o bastante! Passaria a vida dizendo que abandonei meu trabalho, minha carreira, meus colegas, para cuidar deles e agora eles me desapontam com "qualquer coisa que filhinho faz e mamãe não concorda"...
Para me conformar com o preço de não estar com meus filhos por todo o dia, busco pensar que é melhor uma mãe que fica fora de casa e vive contente, do que uma mãe full time, sempre estressada. É óbvio que o ideal é uma mãe contente sempre ao lado do filho, mas... Depois da licença-maternidade, trabalhei quatro meses e saí para mais quatro meses em licença-prêmio e férias, com o objetivo de defender a dissertação de mestrado ainda em 2010. Neste tempo todo, eu tinha empregada e Arthur estava no berçário, o que significaria tempo mais que suficiente para concluir a dita cuja. Só que eu fiz tudo, inclusive as coisas mais desagradáveis como frequentar bancos e hospitais, menos ficar em casa escrevendo. Foi aí que eu percebi que não tenho a menor condição de estar em casa com obrigações domésticas e maternas, all day long.
Assim que o recesso do berçário e as férias da mais velha começaram, “A” empregada foi embora, a substituta era pouco confiável e durou pouco: o caldo entornou. Euzinha-sozinha tinha que dar conta de terminar a dissertação, convocar, entrevistar e treinar as novas contratadas, além de manter a casa em ordem nas entressafras e as crianças entretidas dentro de um apartamento, além de zelar para integridade física de um ser engatinhante, atraído perigosamente por objetos minúsculos, cortantes, queimantes, pontiagudos, de quinas afiadas, viciado em colo, ávido por rotina bem estruturada para dormir cedo e deixar a mãe blogar, ops, escrever sua dissertação, em paz.
Sim, sim, adoro estar com meu bebê e com a minha menina, passar uma tarde brincando no chão com meus filhos, mas all day long, all month long, all life long, para mim é demais! Durante esta pausa, fiquei com saudade dos meus colegas, da minha sala, do meu chefe, dos almoços divertidos, das conversas de corredor, do cafezinho péssimo, das reuniões intermináveis, dos telefonemas malas, das dúvidas ridículas e até dos números minúsculos do sicof.
E olha que nunca fui uma pessoa fissurada em trabalho. O fato é que mesmo sem ser uma workaholic, gosto de estar fora de casa, convivendo com outra rotina, falando com as pessoas, pegando engarrafamento, resolvendo coisas, sendo reconhecida. Porque vamos combinar que trabalho de mãe e de dona-de-casa é NADA reconhecido! Quero conhecer um homem que chegue da rua e elogie a pia brilhando e repare nos cantinho sem poeira. Quantos não chamam de "sorte" o fenômeno de Alice ser bem educada e de Arthur ser um bebê tranquilo.
Eu não suportaria viver por toda a vida como vivi aqueles meses de licenças. Eu acabaria ficando ausente mesmo estando em casa, com o olhar perdido diante de uma tela de internet. Talvez eu ficasse entediada olhando ao redor, esperando que eles crescessem rápido e se virassem sozinhos. Mesmo se tudo desse certo e eu ficasse lá de corpo e alma, leve e feliz, acompanhando cada passada do caminho deles, ainda assim eu os prejudicasse... Esta é nossa sina: traumatizá-los, de um jeito ou de outro. Muitas vezes penso que hoje os nossos filhos, estas crianças de classe média, têm tudo demais! E até mãe pode ser demais...
Mesmo sabendo racionalmente que o melhor para os filhos é ser criados e educados pelos seus pais, com grau zero de terceirização, eu prefiro assumir que não consigo estar em casa, que me cansa, que me irrita. Prefiro buscar argumentos racionais e retomar o motivo das minhas escolhas. Assim posso estar muito presente na hora do almoço, do jantar e na hora de dormir, posso me sentir feliz e agradecida pelos finais de semana e pelas férias, quando estou leve e me esbaldo ao lado deles, porque brincar com eles é lazer, hobby e não o meu trabalho.
Mari é uma defensora assumida do vício do colo. Ela é mãe de dois e escreve no Viciados em colo, onde compartilha suas idéias, teorias, dilemas e experiências. Sempre com inteligência, leveza e uma pitadinha de ironia.
Imagem daqui.





